Durante quase uma década, os processadores de laticínios da América do Norte cresceram sob um cenário relativamente previsível:
Mercados de exportação em expansão, demanda firme por queijo e ingredientes lácteos, e investimentos constantes em capacidade produtiva. Linhas de queijo, plantas de soro de leite, secadores de leite em pó e automação avançaram junto com esse otimismo.
Hoje, boa parte dos maiores desafios da indústria láctea dos EUA não nasce dentro da fábrica, mas fora dela. Negociações comerciais, conflitos geopolíticos, política de imigração, escassez de mão de obra e disrupções no transporte global estão obrigando processadores a repensar desde o abastecimento até os investimentos de capital e as estratégias de exportação.
Kevin Geason, diretor de vendas para laticínios da Tosca, empresa de embalagens reutilizáveis e soluções de cadeia de suprimentos, descreve um setor em que eventos geopolíticos deixaram de ser exceção e passaram a fazer parte do planejamento rotineiro.
Segundo ele, tarifas e incerteza comercial afetam diretamente a estratégia de estoque, os compromissos com clientes e o custo de atender mercados internacionais, mesmo com a demanda global por laticínios dos EUA ainda forte.
Mark Stephenson, diretor de análise de política láctea da Universidade de Wisconsin-Madison, lembra que, ao expandir a capacidade para atender esses mercados externos, os processadores também se tornaram mais expostos a decisões políticas, negociações comerciais e disrupções de transporte que ocorrem a milhares de quilômetros de suas plantas.
Ele destaca uma particularidade do setor: ao contrário de outros produtos industrializados, o leite não pode esperar a incerteza geopolítica passar. As plantas recebem leite cru perecível todos os dias e precisam continuar produzindo, embalando e enviando, independentemente da política comercial do momento.
Um dos temas mais observados é a revisão do Acordo Estados Unidos-México-Canadá (USMCA). Kyle Peacock, da Peacock Tariff Consulting, argumenta que o maior obstáculo não são as tarifas de importação dos próprios EUA, mas as barreiras comerciais impostas por outros países.
Como um sexto da produção de leite americana é exportado, a rentabilidade dos produtores fica altamente exposta a cotas tarifárias não cumpridas, licenciamentos fragmentados, tarifas retaliatórias e restrições de classificação que variam por região.
O sistema canadense de alocação de cotas tarifárias segue sendo um ponto de atrito: mesmo com o acesso ampliado previsto no USMCA, exportadores argumentam que a forma como essas cotas são distribuídas no Canadá continua limitando o benefício real do acordo. Para Peacock, o setor deveria acompanhar de perto se a revisão de 2026 finalmente produz uma linguagem exigível, e não apenas mais um compromisso sem fiscalização.
Disputas comerciais em setores como aço, alumínio e automóveis também afetam o leite de forma indireta, elevando o custo de equipamentos, transporte e manufatura. Peacock cita ainda o risco de tarifas retaliatórias voltadas especificamente ao setor lácteo como forma de pressão em disputas que nada têm a ver com laticínios, além do encarecimento de insumos importados.
A própria incerteza virou um problema de negócio. Compradores internacionais, diante de dúvidas sobre preços e acesso futuro ao mercado, atrasam compras esperando tarifas menores ou compram antecipadamente para se proteger de aumentos — o que gera volatilidade de preços e empurra contratos para prazos mais curtos.
Peacock alerta que isso cria risco de demanda volátil, quedas de preço por superprodução em produtos de curta validade e perda permanente de mercado para concorrentes mais estáveis.
No transporte, os efeitos já são concretos. O conflito que afeta rotas comerciais no Mar Vermelho forçou diversas transportadoras a evitar o Canal de Suez e contornar o sul da África, estendendo o tempo de trânsito e elevando consumo de combustível, custos de frete e incerteza de cronograma — um problema sério para produtos sensíveis à temperatura.
Geason resume a mudança de mentalidade dos últimos anos: há três anos, o foco dos exportadores estava em eficiência e controle de custos; hoje, resiliência e flexibilidade ocupam o topo da lista, em um ambiente marcado por instabilidade geopolítica, escassez de mão de obra e disrupções de transporte mais frequentes.
Segundo ele, a embalagem deixou de ser apenas a etapa final antes do envio e passou a ser uma ferramenta de gestão de risco, já que viagens mais longas e imprevisíveis exigem que o produto resista por mais tempo em trânsito.
A disponibilidade de mão de obra, por sua vez, pode ser o fator com efeito mais imediato na operação diária. Robert Tsigler, advogado fundador do escritório Law Offices of Robert Tsigler, PLLC, observa que a fiscalização de imigração passou a ser tratada pelas empresas agrícolas como parte da gestão de risco do negócio, e não apenas como uma questão jurídica isolada.
Segundo ele, as prioridades de fiscalização têm mirado diretamente operações em locais de trabalho, aumentando a exposição legal dos empregadores agrícolas — que hoje dedicam mais tempo à conformidade do que ao próprio negócio.
O impacto vai além da papelada: funcionários experientes em funções especializadas não são facilmente substituídos em curto prazo. Um desaparecimento repentino de parte da força de trabalho pode significar janelas de ordenha perdidas, produto descartado e contratos quebrados — um dano operacional que, segundo Tsigler, se acumula mais rápido no setor lácteo do que em outros segmentos do agronegócio.
Sua recomendação prática é tratar a conformidade migratória como rotina permanente: manter todos os formulários I-9 completos, atualizados e documentados, em vez de agir apenas quando a fiscalização já está em curso.
A demanda global por queijo, proteínas de soro, leite em pó e outros ingredientes lácteos criou oportunidades relevantes, mas também intensificou a disputa por suprimento. Jason Vaught, diretor de conteúdo e marketing da SmashBrand, consultoria de estratégia de marca para bens de consumo, nota que fabricantes de produtos como suplementos proteicos sentem esses efeitos antes mesmo de chegarem às prateleiras.
Segundo ele, quando uma mudança de tarifa vira notícia, uma marca já está diante de uma fatura de fornecedor de 15% a 20% mais alta, sem aviso prévio e sem margem para absorver o custo.
Vaught também aponta um paradoxo: a força da demanda por exportação de laticínios dos EUA é vista como boa notícia até que uma marca doméstica precise competir pelo mesmo suprimento no mercado global. As empresas que fecharam acordos de fornecimento de longo prazo com preço fixo ficam protegidas; as que compram no mercado à vista a cada trimestre sentem o impacto toda vez que a demanda por exportação sobe.
Sua aposta é que as marcas que sairão na frente serão as que fecharem acordos com múltiplos fornecedores e mantiverem de 60 a 90 dias de estoque de segurança, tratando o abastecimento de ingredientes lácteos como posição competitiva, e não apenas tarefa de compras.
Em meio a tudo isso, a confiança do consumidor segue sendo um ativo determinante. Dr. Darin Detwiler, especialista em segurança alimentar e professor de política alimentar na Northeastern University, além de fundador da Detwiler Consulting Group, defende que manter essa confiança exige mais do que cumprir regulamentações — exige transparência e melhoria contínua ao longo de toda a cadeia.
Para ele, o futuro da indústria láctea não será decidido apenas em portos, fronteiras, negociações comerciais ou mercados de commodities, mas também pela crença dos consumidores de que os produtos lácteos são seguros e merecem confiança. As indústrias mais fortes, segundo Detwiler, não são as que simplesmente reagem a crises, mas as que investem continuamente em prevenção, transparência e responsabilidade antes que a confiança seja colocada à prova.
Um desenvolvimento recente ilustra como esse cenário instável também pode gerar oportunidades concretas: o acordo comercial entre Estados Unidos e União Europeia, recém-implementado, é descrito como um dos avanços mais significativos para o setor lácteo americano em uma década.
Entre suas previsões mais relevantes está a criação de cotas tarifárias que permitem acesso livre de impostos ao mercado europeu para até 10 mil toneladas métricas de queijo dos EUA e outras 10 mil toneladas métricas de produtos lácteos como leite, creme, iogurte, sorvete, pastas lácteas e lactose.
O acordo também reduz tarifas sobre até 50 mil toneladas métricas de fórmula infantil e produtos relacionados, e a União Europeia concordou em simplificar as exigências de certificação sanitária para exportadores americanos.
A International Dairy Foods Association (IDFA) classificou o acordo como o primeiro avanço mensurável no comércio transatlântico de laticínios em dez anos, destacando que os exportadores já podem usar as novas cotas imediatamente, com validade até 30 de junho de 2027.
Michael Dykes, presidente e CEO da IDFA, afirmou que o avanço da União Europeia no cumprimento de seus compromissos representa uma vitória importante para o setor lácteo dos EUA, abrindo novas oportunidades de exportação no mercado europeu.
Ainda que a Europa continue sendo um destino relativamente pequeno para os laticínios americanos em comparação com a América do Norte e a Ásia, o acesso ampliado oferece aos fabricantes uma via adicional para diversificar vendas externas e reduzir a dependência de uma única região.
*Produzido pela eDairyNews, com informações publicadas por Dairy Processing






