ESPMEXENGBRAIND
7 set 2026
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A atividade está mudando de forma acelerada no Estado, enquanto algumas propriedades encontram caminhos para permanecer no campo.
O que está por trás da saída de milhares de famílias e por que algumas propriedades conseguem atrair a nova geração?
O que está por trás da saída de milhares de famílias e por que algumas propriedades conseguem atrair a nova geração?

O futuro dos produtores de leite no Rio Grande do Sul está sendo desenhado por uma combinação de fatores que vai muito além do preço recebido pelo litro.

Entre 2015 e 2025, mais de 55 mil produtores abandonaram a atividade no Estado. E uma projeção baseada na manutenção das condições atuais aponta para uma redução ainda mais profunda nas próximas décadas.

O estudo realizado pelo pesquisador Wagner Beskow, sócio da consultoria Transpondo, com base em levantamentos da Emater/RS, estima que, caso o ritmo observado nos últimos dez anos continue, o Estado poderá chegar a 2051 com menos de 1,7 mil famílias produzindo leite. Isso representaria uma redução de 94% em relação aos atuais 29 mil produtores.

A projeção, porém, não pretende determinar exatamente quantas famílias estarão na atividade no futuro. Segundo Beskow, ela considera a permanência de condições conjunturais semelhantes às atuais, incluindo câmbio, exportações e importações, e serve principalmente para mostrar a direção do movimento.

Por que as famílias estão saindo?

A Emater/RS ouviu 571 famílias que deixaram a produção comercial de leite em 385 municípios gaúchos. O resultado mostra que não existe um único motivo capaz de explicar a decisão.

Dentro das propriedades, a penosidade da atividade aparece como o principal fator, mencionada por 66,4% dos entrevistados. Na sequência estão a falta de mão de obra familiar, com 61,3%, e o desinteresse dos filhos, citado por 37,8%.

Fora da propriedade, o preço do leite ganha ainda mais peso: 79,3% apontaram o baixo preço como um dos fatores relacionados à saída. O custo de aquisição de insumos apareceu para 66,7%, enquanto a contratação de mão de obra foi citada por 30,3%.

Para o extensionista rural Jaime Ries, esses elementos não costumam atuar isoladamente. Uma estiagem, a aposentadoria de alguém da família ou a saída de um filho podem funcionar como o gatilho que transforma uma dificuldade acumulada em uma decisão definitiva.

O dado que ajuda a dimensionar essa ruptura está no desejo — ou na falta dele — de retornar. Entre as famílias entrevistadas, 79,8% afirmaram que não pretendem voltar a comercializar leite. Outros 16,2% disseram não saber ou talvez retomem a atividade. Apenas 4% afirmaram pensar em voltar.

Há, ao mesmo tempo, uma aparente contradição: pouco mais de um terço relatou algum nível de redução da renda depois de abandonar o leite, mas boa parte das famílias declarou estar satisfeita com as atividades que exerce atualmente quando compara a nova situação com o período em que produzia.

Isso não apaga a importância que a atividade teve para essas famílias. Segundo Ries, há entrevistados que relacionam a produção de leite ao financiamento dos estudos dos filhos, à formação de patrimônio e à melhoria das condições de vida.

A atividade diminui, mas a produção avança

O encolhimento do número de propriedades não significa que a produção de leite esteja seguindo a mesma trajetória.

No Brasil, a produtividade média passou de 1.105 litros por vaca por ano em 2000 para 2.362 litros em 2024. No mesmo período, a produção nacional aumentou de 19,7 bilhões para 35,7 bilhões de litros.

No Rio Grande do Sul, a mudança também aparece na escala das propriedades. Segundo Marcos Tang, presidente da Associação dos Criadores de Gado Holandês do Rio Grande do Sul (Gadolando), propriedades que antes de 2015 produziam menos de 100 litros por dia hoje chegam a quase 500 litros diários.

O movimento combina aumento de escala, maior eficiência, migração de animais de maior potencial para produtores com capacidade de investimento e aprimoramento genético.

Para Tang, o perfil do produtor também mudou. A atividade passou a exigir eficiência independentemente do tamanho do rebanho.

Darlan Palharini, secretário executivo do Sindicato das Indústrias de Laticínios do Rio Grande do Sul (Sindilat-RS), coloca essa mudança em outra perspectiva: animais com produção muito diferente podem ter custos de alimentação semelhantes. Uma vaca com genética menos avançada pode produzir entre 15 e 20 litros por dia, enquanto outra chega a 40 ou 50 litros, embora o custo de alimentação seja o mesmo.

É nesse ponto que aparece a principal tensão do processo.

De um lado, existe uma pecuária leiteira mais profissional, com maior produtividade e concentração da produção em propriedades capazes de investir. De outro, existe a saída contínua de famílias da atividade.

Jeferson Faria, assessor executivo da Associação das Pequenas e Médias Indústrias de Laticínios do Rio Grande do Sul (Apil/RS), resume o cenário como uma dicotomia entre a evolução econômica do setor e o impacto social provocado pela perda de produtores.

Quando a sucessão muda o destino da propriedade

Se a saída das famílias é uma das marcas do momento atual, a sucessão familiar aparece como um dos elementos presentes nas propriedades que conseguem projetar continuidade.

Na Cabanha Santa Clara, em Humaitá (RS), Clara Bickel Padilha administra uma propriedade com 32 hectares produtivos dedicados ao leite e ao cultivo de grãos. São 170 cabeças e uma produção diária de 2,5 mil litros. Os animais mais produtivos chegam a 50 litros por vaca por dia.

O investimento contínuo no negócio também criou espaço para a próxima geração. Sua filha, Bruna Bickel Padilha, de 21 anos, já participa da ordenha e planeja assumir os rumos da propriedade.

Para Clara, a relação com a atividade começa cedo: o contato das crianças com os animais, o entendimento do funcionamento da propriedade e a compreensão do valor genético fazem parte desse processo.

A Granja Ferraboli, em Anta Gorda (RS), apresenta outro exemplo. Na Expointer 2026, a propriedade venceu o concurso leiteiro com a vaca Festleite P. Ferraboli 407 Supersite, que produziu 85,27 quilos em um dia.

O resultado, entretanto, convive com a pressão dos custos. Paulo Ferraboli afirma que praticamente todos os produtores estão endividados porque, segundo ele, o valor recebido por um litro de leite não cobre o custo de produção. Mesmo com uma melhora recente, ele já trabalha com a expectativa de nova baixa.

Ainda assim, os filhos decidiram permanecer na propriedade, tanto na produção de leite quanto na lavoura.

É justamente nesse contraste que aparece o desafio colocado pelo cenário gaúcho: a atividade pode se tornar mais produtiva e profissional ao mesmo tempo em que perde famílias.

A questão, portanto, não está apenas em quanto leite cada propriedade consegue produzir. Está também em quantas famílias continuarão dispostas a produzir, investir e transmitir o negócio para a próxima geração.

*Produzido pela eDairyNews, com informações publicadas por Globo Rural

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