O diagnóstico de bovinos pode ganhar uma ferramenta capaz de reduzir drasticamente o tempo entre a coleta de uma amostra e a identificação de uma doença.
Desenvolvido por cientistas do Laboratório de Nanorradiofarmácia do Instituto de Engenharia Nuclear (IEN), no Rio de Janeiro, um microchip diagnóstico apresenta o resultado em cerca de cinco minutos a partir de algumas gotas de saliva ou urina do animal.
A proposta ganha relevância em um setor no qual problemas sanitários representam perdas estimadas em R$ 6 bilhões por ano para os pecuaristas brasileiros, segundo informações publicadas pela Embrapa. Entre os impactos estão a redução da produção de leite, o descarte de produto com resíduos de antibióticos, os custos de tratamento e o abate prematuro de animais.
O funcionamento do dispositivo é baseado em testes colorimétricos. Produzido em impressora 3D e em material transparente, o microchip recebe reagentes específicos de acordo com a doença que será investigada. Depois, algumas gotas da amostra são colocadas no dispositivo e a reação indica resultado positivo ou negativo.
Para o rebanho leiteiro, há ainda uma segunda aplicação: o leite pode ser utilizado para verificar a presença de resíduos de antibióticos. Quando detectado, o produto precisa ser retirado imediatamente de circulação.
O tempo como parte do diagnóstico
Hoje, a manutenção da sanidade do rebanho exige, entre outras medidas, acompanhamento de médicos veterinários e exames. Segundo o material, em geral são realizados exames de sangue para detectar doenças, com o envio das amostras para laboratórios de análise. A resposta pode levar alguns dias.
É justamente nesse intervalo que a nova tecnologia pretende atuar.
“A grande vantagem dos microdispositivos para teste colorimétrico é que eles não dependem de profissional com especialização para utilizá-los e fornecem o resultado em tempo real, cerca de cinco minutos”, afirma o pesquisador Ralph Santos-Oliveira, coordenador do estudo.
O projeto integra o Programa Redes de Pesquisa em Nanotecnologia, criado pela FAPERJ em 2019. O pesquisador também submeteu a iniciativa ao Programa Agro do Futuro, da Fundação.
Entre as doenças mencionadas no projeto estão mastite, brucelose, tuberculose, diarreia e tristeza parasitária. A mastite aparece como um dos principais problemas do gado leiteiro e responde por cerca de 70% das perdas, principalmente pela redução da produção de leite.
O impacto não se limita ao volume produzido. Quando uma vaca recebe tratamento com antibióticos, o leite não pode ser comercializado, o que representa desperdício e queda de receita. A possibilidade de verificar rapidamente a presença de resíduos acrescenta, portanto, uma segunda frente de utilização ao dispositivo.
Da identificação à decisão
Para o produtor, a principal mudança proposta pelo microchip está no intervalo entre identificar um problema e decidir o que fazer. Segundo Santos-Oliveira, o resultado rápido pode permitir uma decisão de tratamento mais ágil, além de reduzir tempo e custo do diagnóstico.
O dispositivo foi desenvolvido para funcionar de maneira semelhante a um kit de teste de gravidez: a amostra é colocada no microchip e a reação indica o resultado para a condição investigada.
O próximo passo previsto pelo pesquisador é o registro da patente. O material, entretanto, já está disponível para empresas interessadas em sua comercialização.
O laboratório do IEN também pretende desenvolver uma versão do microchip voltada à detecção de doenças em equinos. Segundo Santos-Oliveira, empresas interessadas poderão trabalhar com a solução para atender ao mercado e solicitar a aprovação na Anvisa.
A tecnologia, assim, ainda está diante das etapas necessárias para avançar em sua comercialização, mas já coloca uma questão prática para a produção leiteira: quanto mais próximo do animal estiver o diagnóstico, menor pode ser o intervalo entre o surgimento de um problema sanitário e a tomada de decisão.
*Produzido pela eDairyNews, com informações publicadas por FAPERJ






