ESPMEXENGBRAIND
14 set 2026
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🐄 Um problema que já custa bilhões à pecuária leiteira mundial pode ter encontrado uma resposta tecnológica made in Brasil.
mastite
🔬 Dois formados e um estudante de Goiás desenvolveram uma ferramenta que promete antecipar um dos maiores vilões do tambo.

A mastite bovina é apontada como a doença que mais pesa no bolso da pecuária leiteira mundial.

Um estudo publicado em 2024 na Journal of Dairy Science, referência científica na área de leite e laticínios, mapeou em 183 países perdas anuais de cerca de US$ 65 bilhões causadas por doenças em bovinos leiteiros — e a mastite, sozinha, respondeu por aproximadamente US$ 22 bilhões desse total (34% das perdas analisadas), somando suas formas clínica (US$ 13 bilhões) e subclínica (US$ 9 bilhões).

Na conta por animal, os pesquisadores estimaram um prejuízo médio de US$ 72,13 por vaca/ano nos casos clínicos e US$ 50,33 por vaca/ano nos subclínicos.

É justamente esse gargalo que um trio de jovens goianos decidiu atacar com inteligência artificial. Giovanna Vargas Barbosa, recém-formada em Medicina Veterinária pela Universidade Estadual de Goiás (UEG), ao lado de Luca Plaster, formado em Ciência da Computação pela UFG, e Pedro Viana, ainda cursando Ciência da Computação na PUC Goiás, desenvolveram o WiMilk, um software que identifica sinais de mastite bovina antes que a doença se manifeste clinicamente.

A ideia nasceu da vivência de Giovanna, que ainda na graduação prestava consultoria e fazia estágio em fazendas de leite. Foi ali que ela notou o padrão que se repetia: “As vacas costumam ter mastite bovina com recorrência, além de outros problemas, como podais (relacionados aos cascos e patas dos animais) e estresse térmico, que afetam muito a produção do leite”, relata.

Para ela, a pecuária leiteira ficava historicamente à margem da onda de inovação que tomava conta de outras áreas do agro: “Todo mundo queria criar soluções para os desafios da agricultura, que era mais rentável, ou da pecuária de corte. A pecuária de leite precisa de uma atenção, principalmente em relação a doenças.”

Na prática, o WiMilk combina visão computacional com sensores de identificação eletrônica instalados em pontos estratégicos da propriedade, como salas de ordenha e áreas de alimentação.

A inteligência artificial analisa padrões de alimentação, descanso e movimentação dos animais, e qualquer mudança sutil nesse comportamento dispara um alerta direto no celular do produtor — antes que o quadro evolua para algo mais grave. Segundo a equipe, o uso da ferramenta permite reduzir em até 60% o uso de antibióticos no rebanho, além de melhorar o bem-estar animal e diminuir as perdas por descarte de leite contaminado.

O software já soma mais de 800 animais monitorados. A principal frente de testes acontece na fazenda do cantor Amado Batista, em Goianápolis (GO), onde mais de 600 animais são acompanhados, com foco no período pós-parto e treinamento do modelo em vacas holandesas e girolando.

Uma segunda propriedade, em Varjão (GO), com pouco mais de 200 cabeças, já trouxe o resultado mais expressivo até agora: 92% de acurácia no treinamento da IA. “Estamos no final do MVP (Produto Mínimo Viável). Nós temos muitas imagens para o treinamento da IA e a nossa meta é mais de 5.000”, projeta Giovanna.

O impacto financeiro projetado também é concreto: segundo as estimativas da equipe, quando o WiMilk atingir maior robustez, uma propriedade com 150 vacas poderá economizar R$ 83 mil em um ano, combinando a redução de 60% no uso de antibióticos com um salto de 25% na longevidade produtiva do rebanho.

O projeto foi construído sem patrocínio institucional, bolsas ou orientação acadêmica formal. Como os três fundadores vêm de instituições diferentes, optaram por não se vincular a uma única universidade. “Tudo foi construído com base nas nossas próprias vivências”, explica Giovanna. Foi essa combinação — experiência de campo somada a conhecimentos em robótica, hardware e software — que permitiu adaptar a tecnologia à realidade do agronegócio.

O caminho de reconhecimento começou em 2025, com R$ 60 mil conquistados no Agro Startup, promovido pelo Senar e pelo Sebrae — para Giovanna, “a nossa primeira grande conquista com o WiMilk”. Vieram depois premiações internacionais sem valor em dinheiro, como o prêmio do BRICS, que renderam à startup um showroom na China e outro em São Francisco.

O reconhecimento mais recente veio da 14ª edição do Campus Mobile, do Instituto Claro — iniciativa que conta com apoio institucional da Escola Politécnica da Universidade de São Paulo (USP) e do beOn Claro, hub de inovação da companhia, e que tem como objetivo incentivar estudantes universitários e recém-formados a desenvolver soluções tecnológicas com potencial de impacto social.

Entre 417 trabalhos inscritos e 894 estudantes de todas as 27 unidades federativas do país, o WiMilk venceu a categoria Green Tech & Agtech. O prêmio veio em camadas: primeiro R$ 2.500, depois mais R$ 9.000 e, por fim, uma semana de imersão no Vale do Silício, na Califórnia, com hospedagem, passagens, alimentação e transporte cobertos. “Nós ganhamos muito mais do que dinheiro, porque eles bancaram hospedagens, passagens, todo o conforto, transporte, alimentação. Nós ficamos totalmente despreocupados com essa questão”, conta Giovanna.

A partir de 18 de setembro, os dois estudantes goianos passarão por essa imersão em templos da tecnologia como GitHub, Google e AWS. O grupo pretende usar a viagem para abrir portas entre o agronegócio goiano e o mercado dos Estados Unidos: “A expectativa é fazer essa conexão, pois temos muito potencial de crescimento e de exportação”, diz a veterinária. O WiMilk é apenas o segundo projeto de Goiás a vencer o Campus Mobile em 14 edições. “É um peso enorme carregar a mensagem de que Goiânia tem potencial”, afirma Giovanna.

Os próximos passos já estão desenhados em um plano de negócios de dois anos, período também vinculado à prestação de contas junto à Fapeg, agência de fomento que já contemplou os estudantes em outra premiação. Os recursos das conquistas mais recentes serão investidos na compra de equipamentos e em cursos nas áreas comercial e jurídica. A equipe já contratou mais pessoas para a anotação de dados destinados à inteligência artificial e projeta concluir o desenvolvimento ainda este ano, com a comercialização prevista para 2027.

 

*Produzido pela eDairyNews, com informações publicadas por AgFeed

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