O mapa da produção leiteira do Rio Grande do Sul passou por uma mudança profunda na última década.
Entre 2015 e 2025, 55.253 famílias deixaram de produzir leite no Estado, enquanto a produção estadual permaneceu relativamente estável, em aproximadamente 4 bilhões de litros por ano.
Os números, apresentados pela Emater/RS-Ascar, mostram uma cadeia com menos produtores e maior produção por unidade. E colocam no centro da discussão uma questão que vai muito além de equipamentos ou novas tecnologias: como tornar a atividade suficientemente eficiente, sustentável e atrativa para continuar sendo uma opção para as famílias rurais?
É nesse cenário que ganha espaço a discussão sobre manejo, inovação e uso mais eficiente dos recursos disponíveis nas propriedades.
Para Jackson Brilhante, coordenador do Plano ABC+ RS, não existe uma fórmula única. A tecnologia adotada precisa considerar as características de cada propriedade e pode envolver desde estruturas mais complexas até medidas relativamente simples.
Um exemplo citado por ele é o plantio de árvores. Linhas de eucalipto podem melhorar o conforto térmico dos bovinos, animais sensíveis às altas temperaturas, com impacto direto sobre a produção de leite.
A mesma lógica vale para outras decisões do cotidiano. Projetos de reaproveitamento de materiais, biodigestores capazes de converter dejetos em energia e manejo de áreas verdes aparecem como alternativas dentro de uma estratégia que busca combinar eficiência produtiva e conservação dos recursos naturais.
O tema será discutido no Milk Summit Mercosul 2026, marcado para os dias 14 e 15 de outubro, em Ijuí, onde Brilhante fará uma apresentação sobre essas práticas.
Mas o debate ganha outra dimensão quando colocado diante da evolução do número de produtores. Segundo o estudo da Emater/RS-Ascar citado na reportagem, o Estado passou de 84.199 produtores de leite em 2015 para 28.946 em 2025.
Ao mesmo tempo, a produção permaneceu próxima dos 4 bilhões de litros anuais.
A mudança, portanto, não se resume à quantidade de leite produzido. Ela também diz respeito a quem consegue permanecer na atividade e em quais condições.
O assistente técnico da Emater Jaime Ries, que também apresentará um estudo de campo no Milk Summit, descreve esse processo como uma reconfiguração estrutural da cadeia, marcada pela intensificação tecnológica, pela maior exposição à concorrência externa e pelo aumento da vulnerabilidade climática.
Para Ries, entretanto, eficiência produtiva não resolve sozinha a questão da permanência no campo. A disponibilidade de pessoas e a disposição da família para sustentar uma atividade que exige trabalho contínuo e presença cotidiana também pesam nessa decisão.
É justamente nesse ponto que a discussão sobre sucessão familiar se conecta à tecnologia.
Uma propriedade pode incorporar soluções para reduzir desperdícios, melhorar o manejo dos animais, aproveitar resíduos, conservar áreas verdes ou medir sua relação com as emissões de gases de efeito estufa. Mas a escolha precisa fazer sentido para aquela realidade produtiva.
O Plano ABC+ RS trabalha com oito bases: recuperação de pastagens degradadas, sistemas agroflorestais, bioinsumos, integração lavoura-pecuária-floresta, florestas plantadas, manejo de resíduos da produção animal, sistemas irrigados e terminação intensiva.
Entre essas frentes está também a medição de carbono. O programa dispõe de equipamentos capazes de avaliar gases de efeito estufa e a quantidade de carbono estabilizada no solo, permitindo realizar o balanço de carbono das propriedades.
A questão, no entanto, não é apenas medir.
A proposta apresentada por Brilhante é fazer com que produção e conservação caminhem juntas, em um momento em que clima, custos de mão de obra e concorrência aumentam a pressão sobre quem permanece na atividade.
Nesse cenário, a sustentabilidade deixa de aparecer apenas como uma agenda ambiental e passa a fazer parte da própria discussão sobre como produzir leite, organizar a propriedade e manter a atividade viável para a próxima geração.
E talvez esse seja o ponto central da transformação em curso no Rio Grande do Sul: não se trata apenas de produzir mais. Trata-se de entender quais propriedades, com quais pessoas e com quais formas de manejo conseguirão continuar produzindo.
*Produzido pela eDairyNews, com informações publicadas por Correio do Povo






