O Ceará já é o terceiro maior produtor de leite do Nordeste e figura entre os dez maiores do Brasil. Tem mais de 100 mil produtores espalhados por todos os municípios do estado e uma produção que soma 2,0 milhões de litros.
Mas boa parte desse potencial leiteiro ainda esbarra em um obstáculo que não é de produção: é de regularização. A maioria das queijarias artesanais do sertão cearense continua restrita ao comércio local, ou opera na informalidade, por falta de inspeção sanitária oficial.
É esse descompasso que o governo estadual tenta resolver. Desde 2020, com a Lei Estadual 17.318, o queijo artesanal cearense passou a ter um marco regulatório próprio, o que abriu caminho para que centenas de queijarias começassem a formalizar sua atividade.
O secretário executivo do Agronegócio da Secretaria do Desenvolvimento do Estado (SDE), Silvio Carlos Ribeiro, resume o momento: “Estamos mostrando que é possível produzir queijos de qualidade.” Certificações estaduais (SIE) e nacionais (SIB) já permitem que o produto “made in CE” circule pelo Nordeste e chegue a São Paulo, Rio de Janeiro e Minas Gerais. O passo seguinte, mais difícil, é o Serviço de Inspeção Federal (SIF), pré-requisito para que o Ceará possa exportar.
A base produtiva existe. Das 15 bacias leiteiras do país, duas estão no estado: a Bacia Leste Cearense, com Morada Nova produzindo quase 300 mil litros por dia, e a Bacia Centro Cearense, liderada por Quixeramobim, com mais de 200 mil litros diários.
Segundo o pesquisador da Embrapa Gado de Leite Samuel José de Magalhães Oliveira, a produtividade por vaca praticamente dobrou na última década, passando de 857 para 1.654 litros por ano entre 2014 e 2024. Ainda assim, a escala das indústrias segue pequena: enquanto uma unidade de laticínio no Brasil capta, em média, 38 mil litros de leite por dia, no Ceará essa média cai para 18 mil. “Isso é um fator desafiador para a competitividade da cadeia de lácteos”, avalia o pesquisador.
José Antunes, presidente do Sindicato das Indústrias de Laticínios do Ceará e proprietário da Laticínios Vale do Pirangi, que recebe leite de 60 produtores, descreve a pressão que isso gera sobre quem está na ponta da produção: “Há pouco tempo uma vaca que produzia de 8 a 10 litros era considerada boa, hoje com 25 litros ordenhados diariamente, ela já não se paga.”
Para ele, o setor enfrenta ameaças em duas frentes. Internamente, parte do rebanho leiteiro do Nordeste vem sendo convertida em gado de corte, reduzindo a oferta de matéria-prima. Externamente, o preço ao produtor já sofre a concorrência do leite importado da Argentina e do Uruguai, e um eventual acordo entre União Europeia e Mercosul poderia trazer queijos europeus para as prateleiras brasileiras. Uma reforma tributária mal calibrada, segundo ele, também ameaça os incentivos estaduais que hoje sustentam o uso de leite local na indústria.
O peso social da atividade ajuda a explicar por que o estado insiste na formalização. Segundo a chefe-geral da Embrapa Caprinos e Ovinos, Ana Clara Cavalcante, o setor leiteiro responde por um Valor Bruto de Produção de R$ 2,32 bilhões, mais de 20% de todo o VBP agropecuário cearense, e sustenta entre 73 mil e 85 mil famílias, mais de 80% delas agricultores familiares.
Por gerar renda todos os dias do ano, independentemente de chuva, o leite funciona como âncora contra o êxodo rural no semiárido — reforçada por programas como o PAA Leite (Leite Fome Zero), que compra a produção local para escolas, creches e hospitais.
Os primeiros resultados da formalização já aparecem no mapa. Políticas como a desoneração de ICMS e a certificação Selo Arte vêm destravando queijarias artesanais em polos como o Baixo e Médio Jaguaribe, que reúne cerca de 2 mil queijarias, e a Queijaria Dona Vita, de Limoeiro do Norte, foi a primeira do interior a conquistar autorização para vender em todo o país. Um exemplo do caminho possível é a Framilk, fundada em 1994 em uma casa da Fazenda Bom Jesus produzindo apenas queijo coalho.
Hoje, sob o comando de Vicente Francélio Maia e Carmen Lúcia Barreto, a empresa compra leite de produtores parceiros da região e fabrica muçarela, requeijões, ricota, manteigas e doces de leite, distribuídos por dezenas de municípios cearenses. “Queremos crescer e inovar sem abrir mão da qualidade e da essência que construímos ao longo de mais de três décadas”, afirmam os proprietários.
O desafio agora é replicar essa trajetória em escala. Multiplicar queijarias certificadas, alcançar o SIF e transformar a tradição do queijo coalho cearense em produto de exportação depende menos de leite — que o estado tem de sobra — e mais da capacidade de formalizar quem ainda produz na informalidade.
*Produzido pela eDairyNews, com informações publicadas por TrendsCE






