O leite cru voltou ao centro da discussão sobre segurança dos alimentos nos Estados Unidos, e desta vez com um personagem a mais: o H5N1.
A Academia Americana de Pediatria (AAP) atualizou sua orientação e reiterou o pedido de proibição da venda e da distribuição de leite e derivados sem pasteurização, incluindo queijos crus. Para a entidade, esses produtos são inseguros e podem estar ligados à disseminação da influenza aviária.
O documento, intitulado, em tradução livre, “Consumo de leite e derivados crus por gestantes e crianças”, aponta indícios de que o H5N1 pode representar um risco novo e potencialmente sério. Segundo as pesquisas citadas, o vírus passa do gado leiteiro infectado para o leite, onde atinge concentrações altas e continua detectável por até cinco semanas, mesmo sob refrigeração.
O número que sustenta o alerta vem do surto de 2024 na pecuária leiteira americana: nas áreas afetadas, o vírus infeccioso foi detectado em quase um quarto das amostras de leite cru. Para a AAP, isso mantém o H5N1 como uma ameaça crível e emergente. A lista de patógenos já conhecidos do leite não pasteurizado, com Listeria, E. coli, Salmonella, Campylobacter e Brucella, segue valendo.
Quem corre mais risco são as crianças pequenas e as pessoas grávidas ou que amamentam. Segundo Adam J. Ratner, autor principal da declaração, quase metade das doenças causadas pelo consumo de lácteos crus ocorre em menores de 20 anos, e uma parcela significativa desses casos atinge crianças com menos de cinco anos. As infecções podem ser graves e evoluir para complicações com risco de vida.
Na gestação, o quadro é ainda mais delicado. A incidência de listeriose é estimada em 12 a 14 vezes maior do que na população geral, e a infecção pode causar aborto espontâneo, natimorto, parto prematuro ou doença grave no recém-nascido. A AAP também rebate o argumento de que o leite cru traria benefícios superiores à saúde: segundo a entidade, isso não tem respaldo científico.
A diferença está no processo. O leite cru, de vacas, cabras ou ovelhas, não passa pela pasteurização, que aquece o leite para eliminar bactérias e outros patógenos nocivos. Ratner lembra que a técnica, usada há mais de um século, reduz drasticamente os riscos sem tirar o valor nutricional em que as famílias confiam.
Mark R. Corkins, coautor da declaração, diz que pais podem escolher o leite cru por ouvirem que é mais saudável ou natural, mas que a evidência científica conta outra história. Para bebês, crianças e gestantes, afirma, os lácteos pasteurizados são claramente a opção mais segura, com os mesmos nutrientes essenciais e sem exposição a bactérias e vírus perigosos.
O cenário regulatório segue dividido. A declaração atualiza a orientação dada pela última vez em 2014 e reafirmada em 2025. Ainda assim, a venda de leite cru continua legal em pelo menos 27 estados americanos, embora, no fim de 2024, o Departamento de Agricultura dos EUA (USDA) tenha determinado testes obrigatórios do produto para reforçar a vigilância do H5N1.
O tema ganha um exemplo prático recente: a Sierra Nevada Cheese Company, de Willows, na Califórnia, recolheu voluntariamente todo o Graziers Raw Milk Cheese que estava no mercado, por possível contaminação com E. coli.
*Produzido pela eDairyNews, com informações publicadas por Dairy Reporter






