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Queda de 31,5% da população jovem no campo gaúcho acende alerta sobre a continuidade das propriedades e os reflexos na economia do Vale.
sucessão
A falta de sucessores pode levar à interrupção das atividades, à venda ou ao arrendamento das terras e à concentração da produção.

A sucessão rural desafia o futuro da agricultura familiar e das cadeias produtivas do Vale do Taquari.

Dados divulgados pela Federação dos Trabalhadores na Agricultura no Rio Grande do Sul (Fetag-RS) apontam que a população jovem no campo caiu de 336 mil pessoas, em 2010, para 230 mil, em 2022. A redução foi de 31,5%.

O levantamento também indica que cerca de 3,6 mil estabelecimentos da agricultura familiar são dirigidos por pessoas de até 25 anos, o equivalente a 1,2% do total de aproximadamente 294 mil propriedades. Os números reforçam a preocupação com a renovação dos responsáveis pela produção rural.

Para a economista Fernanda Sindelar, a redução da população jovem pode comprometer a oferta de mão de obra e a continuidade das propriedades que abastecem as cadeias agroindustriais da região. “Essa queda brusca compromete a renovação da mão de obra e a sucessão das propriedades que abastecem as cadeias agroindustriais da região. Como consequência, podemos ter redução da produção e da renda rural. As indústrias também podem precisar buscar insumos em outras regiões, o que aumenta os custos de produção”, avalia.

Segundo a economista, os efeitos podem alcançar outros setores. A produção rural sustenta atividades industriais e de serviços e também influencia o retorno de ICMS aos municípios. Sindelar ressalta, porém, que os dados disponíveis não permitem calcular o impacto direto no Produto Interno Bruto (PIB) do Vale, pois o levantamento abrange o Rio Grande do Sul. Na região, ela observa informalmente essa realidade, sobretudo nas atividades ligadas ao leite.

Sucessão gradual

Segundo a assistente técnica regional da Emater/RS-Ascar, Elizângela Mainardi Roso Teixeira, a sucessão rural depende de renda, autonomia financeira e participação dos jovens nas decisões das propriedades. “Não basta incentivar o jovem a ficar no campo. É preciso criar condições para que ele queira ficar e possa viver dignamente da atividade”, afirma.

A falta de sucessores pode levar à interrupção das atividades, à venda ou ao arrendamento das terras e à concentração da produção. Os extensionistas Diego Oliveira e Letícia Mairesse observam que entre os fatores que afastam os jovens estão a busca por oportunidades profissionais, as dificuldades de conciliar trabalho e qualidade de vida e a falta de autonomia na gestão familiar.

Segundo Elizângela, a centralização das decisões pelos pais e a ausência de planejamento também dificultam a transição entre gerações. “Uma estratégia importante é promover uma transição gradual, em que o jovem assuma responsabilidades crescentes, com acompanhamento técnico e liberdade para tomar decisões.”

A Emater atua no planejamento econômico das propriedades, na orientação para acesso ao crédito, na diversificação produtiva e na formação de jovens empreendedores. Entre as iniciativas estão o Pronaf Jovem, os projetos produtivos da agricultura familiar e o incentivo às agroindústrias.

Para ampliar o diagnóstico sobre as perspectivas da juventude rural, a Emater e a Secretaria do Desenvolvimento Rural realizam uma pesquisa estadual com 3.987 jovens de 464 municípios. A coleta de dados está na etapa final.

  • A população jovem no campo caiu 31,5% entre 2010 e 2022 no RS

A busca pela qualificação

Andrieli Wermann (31), de Bom Retiro do Sul, trabalhou desde pequena com os pais, Ângela e Sergio André, na localidade da Pedreira. A família iniciou as atividades rurais conciliando o plantio de fumo, com gado leiteiro. Com o tempo, a produção de leite se tornou a única renda financeira da família.

“Sou a mais velha de três irmãos. Minha irmã nunca demonstrou vontade de ficar. Meu irmão ficou durante um tempo, mas hoje ela trabalha em uma escola, e ele num banco. Eu fiquei, porque sempre gostei dessa lida”, conta.

Após formar-se no Ensino Médio em 2012, Andrieli cursou Técnico Agrícola, com o objetivo de trazer mais conhecimento e qualificação às práticas tradicionais da família.

Ela observa uma melhora significativa no trabalho rural entre a geração dos pais e a sua, principalmente por conta da tecnologia, que diminuiu parte do trabalho pesado. “Mas mesmo assim, eu percebo que o que afasta os jovens do campo é o compromisso diário. Aqui não tem fim de semana, né? É sábado e domingo direto”, conta.

A família Wermann foi uma das atingidas pela enchente de 2024. Hoje, está com a produção e a estrutura sendo recuperada. A propriedade tem 35 vacas em lactação e 100 ao todo, que somam 600 litros de leite diários. Os planos de Andrieli é seguir e desenvolver a produção.

Inovação como caminho do retorno

Alex Possamai (36) é um dos quatro filhos do casal Rudi e Simoni, da Linha Daltro Filho, em Imigrante. Descendente de alemães e italianos, a família se consolidou no agronegócio com a produção de leite e aves, atividades que mantém até hoje. “Mas eu nunca quis ficar. Achava que o campo era um lugar sem futuro, que não teria como crescer. Aí fui buscar fora de casa novas oportunidades”, lembra.

Alex trabalhou durante boa parte da vida na iniciativa privada. Próximo à pandemia, atuava como funcionário de uma cervejaria quando decidiu voltar para casa. “Foi só felicidade, né? Meus pais, meus avós. Todos muito felizes que eu tinha voltado para a propriedade.”

Mesmo com o retorno, ele sabia que não queria permanecer nas atividades ligadas à produção de aves e leite. Encontrou na inovação a possibilidade de abrir novos caminhos para a propriedade da família.

Ao lado dos irmãos, criou a Cachaçaria Possamai, que preserva a tradição familiar e acompanha todas as etapas do negócio, do plantio da cana-de-açúcar à venda dos produtos finais. “Na época, meu desejo era fabricar cerveja, mas, por conta da pandemia, os insumos estavam muito caros. Apostamos nas cachaças e vimos um mercado em crescimento. Recorremos à Cooperativa Sicredi em busca de capital para investimentos e iniciamos”, conta.

Além das cachaças, hoje, a empresa produz licores e oferece um espaço de convivência e comercialização. O objetivo é transformar a propriedade em um empreendimento turístico, com a cachaça como alavanca econômica.

Possibilidades de investimentos

Alex Possamai faz parte da terceira geração da família na propriedade, em Imigrante. Com o retorno para casa, ele trouxe inovação aos negócios e criou a Cachaçaria que carrega na marca o sobrenome italiano

O retorno de jovens às propriedades rurais, como ocorreu com Possamai, é um movimento percebido pela Sicredi Ouro Branco RS/MG. Segundo o assessor do segmento rural da cooperativa, Carlos Roberto Wagner, há sinais de renovação geracional no Vale do Taquari e no Vale do Caí, embora a mudança ocorra de forma gradual.

“Historicamente, a gente observava o aumento da idade média dos produtores rurais. Agora, percebemos um movimento de jovens que retornam às propriedades e enxergam oportunidades de renda e de diversificação das atividades”, afirma o assessor.

A cooperativa atua há anos para incentivar a sucessão, com a divulgação de experiências de famílias que encontraram alternativas para desenvolver os negócios rurais. A intenção é mostrar às novas gerações que o campo pode oferecer oportunidades de crescimento, inovação e autonomia financeira. “Quando mostramos exemplos de sucesso, queremos que outros jovens percebam que é possível voltar, criar novas possibilidades e contribuir para o desenvolvimento da propriedade da família”, destaca.

O assessor também identifica sinais de mudança no perfil dos associados da cooperativa, com redução da participação de pessoas acima de 60 anos entre o público rural. Para ele, o movimento indica uma renovação gradual, ainda que a sucessão continue como um desafio para muitas famílias.

“A continuidade das propriedades depende de planejamento, acesso ao crédito e participação dos jovens nas decisões. O trabalho também envolve outras instituições, como cooperativas de produção e de eletrificação, que atuam para fortalecer a atividade rural”, reforça.

*Produzido pela eDairyNews, com informações publicadas por  Grupo A Hora 

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