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28 out 2026
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Surtos relacionados ao consumo de leite cru aumentaram nas últimas duas décadas, segundo a AAP. Quase metade dos casos envolve crianças.
saúde
*Vivaldo José Breternitz é Doutor em Ciências pela Universidade de São Paulo, professor e membro da Congregação da Faculdade de Medicina de Jundiaí.

Saúde infantil | Enquanto muitos médicos melhoram sua prática adotando as mais recentes conquistas da medicina moderna, de potentes medicamentos contra a obesidade a tratamentos inovadores contra o câncer, pediatras americanos se veem obrigados a retroceder, lutando para preservar avanços na saúde infantil conquistados com dificuldade há décadas.

Com Robert F. Kennedy Jr., um conhecido opositor das vacinas à frente da secretaria (ministério) de saúde, a Academia Americana de Pediatria (AAP) tem dedicado tempo e recursos consideráveis, ao longo do último ano, para defender com veemência imunizações que salvam vidas, vacinas seguras e rotineiras que já protegeram milhões de crianças e evitaram sofrimento e incapacidades incalculáveis.

Kennedy não está sozinho nessa volta ao passado: recentemente o New York Times revelou que Ken Paxton, procurador-geral do Texas, abriu investigações contra pediatras simplesmente por vacinarem seus pacientes. Paxton alega, sem maiores detalhes, que as vacinas fariam parte de um “esquema multinível e multi-indústria”.

Críticos afirmam que sua campanha antivacina parece ter como objetivo agradar Kennedy, Trump e seus apoiadores, já que Paxton disputa uma vaga no Senado dos EUA.

Paralelamente, a AAP precisou reafirmar outra posição histórica em defesa da saúde infantil: a proibição do consumo de leite cru, não pasteurizado.

Desde o início do século XX, produtores de laticínios nos EUA tratam o leite para eliminar patógenos perigosos presentes no gado e capazes de contaminar o produto. A pasteurização foi responsável por uma queda notável nas mortes e doenças infantis.

Mas, assim como ocorre com as vacinas, a desinformação tem corroído a confiança nessa medida de saúde pública. Kennedy também figura entre os defensores da reversão dessa conquista. Nos últimos anos, leis estaduais vêm flexibilizando restrições ao leite cru, apesar da proibição federal de comércio interestadual; hoje, ao menos 27 estados permitem sua venda.

Como consequência, surtos relacionados ao consumo de leite cru aumentaram nas últimas duas décadas, segundo a AAP. Quase metade dos casos envolve crianças.

No início de outubro, o ProPublica, veículo de jornalismo investigativo independente, sem fins lucrativos, relatou o caso dramático de uma menina de 17 meses, na Califórnia, que quase morreu após contrair E. coli O157:H7 ao tomar leite de cabra cru.

A criança desenvolveu síndrome hemolítico-urêmica, complicação grave que destrói glóbulos vermelhos e danifica vasos sanguíneos nos rins, podendo levar à falência renal e à morte. Ela sobreviveu após cuidados intensivos, mas terá sequelas permanentes: atrasos no desenvolvimento da fala e da motricidade, além de problemas renais que exigem acompanhamento com nefrologista.

Antes da infecção, a mãe desconhecia os riscos do leite cru e confiava em informações falsas divulgadas nas redes sociais, que propagavam supostos benefícios em relação ao leite pasteurizado. Hoje, ela se arrepende profundamente e tenta alertar outras famílias, mas, num exemplo de como a ignorância é grande, foi excluída de grupos online por denunciar os perigos.

Em documento divulgado nesta semana, a AAP reiterou todas as razões pelas quais especialistas recomendam, há décadas, o consumo exclusivo de laticínios pasteurizados. “A AAP também apoia a proibição da venda ou distribuição de leite e derivados não pasteurizados em todo o território dos Estados Unidos”, escreveu a entidade.

“Essa recomendação se baseia na ampla evidência científica sobre a carga de doenças associadas ao consumo de leite cru, especialmente entre gestantes, fetos, recém-nascidos, lactentes e crianças pequenas, bem como na comprovação de que a pasteurização não altera o valor nutricional do leite”.

É espantoso observar como cargos de extrema importância em um país do porte dos EUA podem ser ocupados por pessoas com tal nível de ignorância.

*Produzido pela eDairyNews, com informações publicadas por Medicina S/A 

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