Casal de empreendedores supera a falência e chega ao ouro | Quando se viu obrigado a fechar a empresa e vender os bens, Antônio Jacinto Pio, 59, logo entendeu que ele e a família enfrentariam dias difíceis.
A casa grande e confortável, com churrasqueira e piscina, assim como os carros, símbolos de sucesso nos negócios, foram convertidos em moeda para quitar dívidas com fornecedores.
Sem fonte de renda e moradia, Antônio saiu de Cuiabá levando a esposa, Silvana, e os três filhos – Eder, Lorena e Antônio.
Ele deixou para trás a cidade que, por alguns anos, havia lhe proporcionado a oportunidade de empreender e ganhar dinheiro.
Não só a oportunidade, mas a lição de que empreender não é uma tarefa fácil.
Em Cuiabá, também ficou um bem, o único, um pedaço de terras do qual Antônio resistiu em se desfazer.
“Quando chegamos no fim da linha, no momento da venda dos bens, eu disse a minha esposa que optaria por vender a casa e deixar o sítio. Ela concordou”, recorda ele.
“Não era um sítio formado, mas parece que eu sabia que retornaríamos e que aquelas terras garantiriam o nosso futuro”, analisa ele.
Devota de Santa Rita de Cássia, antes da partida, Silvana batizou as terras com o nome da santa.
“Fomos para Campo Grande (MS), onde trabalhei de empregado”, conta Antônio Pio.
Menos de dois anos depois, em 2010, a família retornou para Cuiabá, com alguns planos em mente.
Com o leite das vaquinhas, ele e a mulher começaram a produzir queijos. Quando a produção de queijo aumentou e começaram a fazer doces, o casal foi morar no sítio
Primeiro, morariam na cidade, conciliando atividades produtivas no sítio.
Localizado a 60 km do centro de Cuiabá, a primeira atividade nas terras foi uma plantação de melancias. Uma modesta lavoura.
Logo depois, Antônio comprou as primeiras vaquinhas.
Com o leite das vaquinhas, ele e a mulher começaram a produzir queijos.
Quando a produção de queijo aumentou e começaram a fazer doces, o casal foi morar no sítio.
Hoje, além de sede da pequena empresa Santa Rita e moradia do casal, o sítio é o centro de lazer dos filhos, noras, genros e netos.
É de onde saem os produtos Santa Rita, uma marca consolidada com mais de 20 itens sendo comercializados em Cuiabá.
No cardápio deles, estão os queijos frescos, os que deram origem aos negócios, queijos maturados, além de derivados, como a queijadinha (doce de queijo).
Com a Santa Rita, Antônio voltou não apenas a ser um empreendedor bem-sucedido, mas o dono do melhor doce de leite do Estado.
E, também, um gerador de renda para outros pequenos produtores e…
PASSADO – Antes de prosseguir narrando a história atual, Antônio faz uma pequena pausa e volta ao passado.
“Somos de Goiás, só que moramos alguns anos em Campo Grande, onde trabalhei como empregado em uma empresa do ramo de alimentos”, conta.
“Foi de lá que viemos para Mato Grosso pela primeira vez. Chegamos aqui e montamos uma pequena empresa. Eu comprava alimentos e montava cestas básicas para revender”, diz.
“A empresa cresceu. Passamos a vender muito, mas me perdi. Não dei conta de controlar, de administrar os negócios”, admite ele.
“Errei deixando que as mesmas pessoas que entregavam as cestas recebessem o pagamento e fizessem o controle da entrada do dinheiro”, lamenta.
“Trabalhava muito, vendia muito, mas não fazia a gestão como deveria”, reforça.
“Quando me dei conta, era tarde. O que eu tinha para receber não pagava as dívidas com fornecedores. Estava falido”, reforça.
“Não restou saída. Tivemos de nos desfazer do patrimônio que havíamos conquistado”, confessa.
MEDALHA DE OURO – Em julho deste ano, participando pela primeira vez de um concurso que avalia sabor e qualidade de produtos artesanais, Antônio e Silvana tiveram as lembranças da falência convertidas em alegria e coroação do sucesso.
O doce de leite cremoso que eles produzem ganhou a medalha de ouro de melhor doce do Estado.
Isso aconteceu no 3º Festival do Queijos e Produtos Lácteos de Mato Grosso, evento do Sebrae-MT, organizado em parceria com o Governo do Estado.
“Fomos incentivados a inscrever por uma equipe técnica que visitava o sítio para avaliar nosso queijo. Estávamos no processo de emissão do selo de produto artesanal”, conta.
“A equipe provou nossos queijos e doces e ficou encantada. Insistiu que tínhamos de concorrer no festival”, lembra ele.
“Essa medalha, entendo, mostra que agora estamos fazendo a coisa certa. Andando para o lado certo”, analisa Antônio.
Além do doce de leite medalhista de ouro, a marca Santa Rita produz o doce talhado (a cachorrada), cortado em pequenas barras (tipo rapadurinhas).
Também prepara e comercializa alimentos à base de carne suína.
Vendem, em porções congeladas, linguiça, almôndega, hambúrguer e pernil picado.
A marca Santa Rita cresceu e se tornou importante também para outros sitiantes.
Antônio passou a comprar de outros pequenos produtores parte do leite usado na produção dos doces, além da carne suína.
MERCADO CONSUMIDOR – No início das atividades, o casal vendia de porta em porta, em bairros e condomínios de Cuiabá.
Há cerca de 8 anos, as feiras realizadas no Centro Político Administrativo (CPA), local sede de dezenas de órgãos públicos, é o principal destino da produção.
Os dois participam de cinco feiras e têm os servidores públicos estaduais principais consumidores.
Antônio e Silvana estão acostumados a ouvir elogios dos clientes, mas, dizem, não tinham expectativas de receber medalhas e títulos pelo que fazem.
Elogio como o que fez esta semana a servidora Rita de Cássia Leite.
“Estou comprando pela primeira vez, mas já consumi muitos produtos deles comprados por colegas do trabalho”, revela Rita, servidora da Setasc (Secretaria de Trabalho e Assistência Social).
“Não sabia da medalha de ouro, mas gosto tanto que estou aqui para comprar. Além de compartilhar com os colegas, quero levar para casa”, disse Rita.
Na sacola, além do doce medalhista de ouro, Rita levou uma metade do queijo que deu origem à nova história de sucesso do casal no empreendedorismo.
PRAZER E ALEGRIA – Antônio Pio diz que a vida no sítio não é fácil.
Ele e a mulher trabalham duro, com a ajuda de apenas um funcionário.
Mesmo assim, os dois garantem que não trocariam nada do que estão vivendo no sítio com o que poderiam viver em outra atividade na cidade.
O casal vem quatro vezes na semana para Cuiabá. Chega cedo e ao final da manhã retorna.
“Acho que não conseguimos mais viver na cidade. A vida no sítio é muito boa”, assegura Antônio.
Nos finais de semana, o sítio é o recanto de lazer de toda a família.
“É uma alegria estarmos reunidos. Todos os finais de semana eles estão aqui”, garante o casal.
E quando retornam para a cidade, os filhos levam para suas casas os frutos da produção dos pais.
“Saem daqui com frango caipira, doces, queijos… É uma coisa muito boa viver como estamos vivendo”, completa ele.
*Produzido pela eDairyNews, com informações publicadas por Diario de Cuiabá






