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30 jan 2026
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O acordo Mercosul–UE reacende o debate sobre o leite brasileiro, mas especialistas apontam gestão, custos e dados como desafios centrais 🧩
Mais do que a concorrência europeia, o acordo Mercosul–UE evidencia fragilidades históricas do leite brasileiro 📉
Mais do que a concorrência europeia, o acordo Mercosul–UE evidencia fragilidades históricas do leite brasileiro 📉

O acordo Mercosul–UE voltou a colocar o leite brasileiro no centro do debate sobre competitividade, eficiência e organização da cadeia produtiva.

Após mais de duas décadas de negociações, o tratado — já judicializado — reacendeu preocupações no setor lácteo, especialmente diante da possibilidade de redução de tarifas dentro de cotas para produtos europeus como queijos e leite em pó.

Apesar do alerta entre produtores, especialistas ouvidos convergem em um ponto: os maiores desafios do leite brasileiro não estão, necessariamente, na concorrência externa, mas em fragilidades estruturais internas, que o acordo apenas torna mais visíveis.

Na avaliação do pesquisador da Embrapa Gado de Leite, Paulo Martins, a ideia de que o produtor nacional será automaticamente prejudicado pela entrada de lácteos europeus precisa ser relativizada. Segundo ele, o principal entrave à competitividade está na baixa qualidade da gestão, tanto no campo quanto na indústria.

“O principal problema brasileiro é a gestão deficiente no setor primário e nos laticínios, o que encarece os produtos”, afirma. Para o pesquisador, reconhecer essa realidade é condição básica para avançar em eficiência, controle de custos e sustentabilidade econômica.

Martins destaca ainda a necessidade de aprofundar a análise sobre subsídios recebidos por produtores europeus, incluindo transferências diretas e incentivos indiretos a insumos. Caso sejam confirmados, o Brasil teria base para discutir medidas compensatórias. Ainda assim, ele avalia que há tempo para ajustes internos antes que os efeitos do acordo se materializem no mercado. “O que não dá é para não fazer o acordo. Ele será positivo para o Brasil como um todo”, resume.

Outro receio recorrente entre produtores é o uso da previsibilidade das importações como argumento para pressionar o preço do leite pago ao campo. Para Martins, essa leitura simplifica excessivamente a dinâmica do setor. Ele ressalta que a indústria láctea não é a principal captadora de valor da cadeia.

Segundo o pesquisador, supermercados e indústrias que utilizam leite como insumo — como fabricantes de biscoitos, chocolates e doces — possuem maior poder de barganha e acabam influenciando os preços pagos aos laticínios, que repassam essa pressão aos produtores.

Além disso, o elevado número de laticínios no Brasil faz com que os preços reflitam diretamente a relação entre oferta e demanda. Em períodos de escassez, como em 2022, quando a produção caiu cerca de 10%, os preços sobem. Em cenários de maior oferta, como o atual, influenciado pelo crescimento da produção e pelas importações, a tendência é de queda.

Para Martins, a forte volatilidade de preços está diretamente ligada à ausência de dados confiáveis ao longo da cadeia. A falta de informações consistentes sobre produção primária e industrial cria incerteza e dificulta previsões de médio prazo. “Isso revela imaturidade e desorganização”, afirma, defendendo a coleta e divulgação sistemática de dados como base para decisões mais racionais.

Do lado da indústria, o CEO da Cia do Leite, Ronaldo Carvalho, avalia que o acordo Mercosul–UE não altera de forma relevante a dinâmica de oferta no curto e médio prazo. “Não vejo nem risco nem ganho imediato”, afirma. Segundo ele, Argentina e Uruguai já são os principais fornecedores externos de leite em pó, com custos, logística e câmbio mais competitivos que os europeus.

Ainda assim, Carvalho vê oportunidades pontuais para produtos brasileiros de maior valor agregado, especialmente proteínas lácteas. Ele pondera, no entanto, que a cadeia do leite no Brasil tende a reagir lentamente, aguardando a consolidação do acordo e maior clareza regulatória antes de investir.

Barreiras sanitárias e exigências ambientais também entram no radar. Nesse contexto, estados do Sul — Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul — aparecem em vantagem, por estarem mais avançados em certificações, sanidade, rastreabilidade e práticas ESG.

No balanço final, pesquisa e indústria concordam: o acordo Mercosul–UE não cria uma crise para o leite brasileiro, mas expõe desafios históricos. Competitividade, gestão, dados, sanidade e estratégia seguem sendo os fatores decisivos para o futuro do setor.

*Escrito para o eDairyNews, com informações de Notícias Agrícolas

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