O acordo Mercosul-UE reacendeu preocupações no setor de produção de leite no Brasil, que se posiciona como o mais apreensivo entre as cadeias do agronegócio diante do novo marco comercial entre os blocos.
Lideranças do segmento alertam que, sem políticas de transição e medidas de proteção, o tratado pode aprofundar desigualdades já existentes na pecuária leiteira.
Segundo Alessandro Oliva Coelho, presidente do Núcleo dos Criadores de Girolando de Mato Grosso do Sul, o principal risco está na entrada de produtos lácteos europeus fortemente subsidiados. Para ele, a concorrência tende a pressionar ainda mais as margens do produtor brasileiro, que já enfrenta custos elevados, volatilidade de preços e baixa previsibilidade econômica. “Sem instrumentos de proteção, o acordo Mercosul-UE pode ampliar desigualdades dentro da cadeia”, avalia.
O tratado foi oficialmente assinado no dia 17, no Paraguai, após mais de duas décadas de negociações. Considerado um dos acordos comerciais mais ambiciosos já firmados pelo Brasil, ele inaugura uma nova etapa nas relações entre Mercosul e União Europeia, com promessas de maior acesso a mercados internacionais, mas também com exigências técnicas, sanitárias e ambientais mais rigorosas.
Na avaliação de Coelho, o impacto positivo do acordo tende a ser limitado para boa parte do agro. Ele observa que, para cadeias como pecuária de corte, aves e suínos, não há abertura ampla do mercado europeu, mas sim cotas específicas com tarifas reduzidas. No caso da carne bovina, por exemplo, o volume estimado gira em torno de 99 mil toneladas para todo o Mercosul, considerado pequeno diante da produção brasileira.
Na prática, explica o dirigente, o acesso ao mercado europeu será altamente competitivo e direcionado a nichos de maior valor agregado. “Não é uma solução para escoar grandes volumes. É uma vitrine para quem consegue atender padrões muito rigorosos”, afirma. Essa lógica, segundo ele, se estende ao setor de leite, que vê poucas oportunidades concretas de exportação em larga escala no curto prazo.
Um dos pontos mais sensíveis do acordo Mercosul-UE é o capítulo ambiental, especialmente as exigências de rastreabilidade. Embora formalmente voltadas aos exportadores, lideranças do setor temem que essas regras acabem se expandindo para toda a cadeia produtiva, elevando custos e complexidade operacional.
Esse cenário preocupa especialmente regiões com predominância de sistemas extensivos, como Mato Grosso do Sul e o Pantanal. Nessas áreas, fatores geográficos, logísticos e ambientais tornam a implementação de sistemas avançados de rastreabilidade mais desafiadora. Coelho alerta que imposições padronizadas, inspiradas em realidades europeias, podem excluir produtores que atuam de forma legal e sustentável, mas não dispõem de capital ou escala para se adaptar rapidamente.
Para o dirigente, exigências ambientais e sanitárias precisam ser construídas com base técnica, prazos viáveis e políticas públicas de transição. Ele defende que tais requisitos sejam opcionais e restritos aos produtores que optarem por exportar, evitando impactos sistêmicos sobre toda a cadeia leiteira.
Mato Grosso do Sul, segundo Coelho, reúne ativos estratégicos importantes, como avanços em sanidade animal, bem-estar e programas de sustentabilidade. No entanto, transformar esses ativos em vantagem competitiva exigirá apoio institucional, assistência técnica contínua, segurança jurídica e acesso à tecnologia, sobretudo para pequenos e médios produtores.
O acordo também prevê mecanismos de salvaguarda que permitem à União Europeia suspender importações caso identifique riscos ao seu mercado interno, reforçando que o acesso será técnico, condicionado e sujeito a normas ainda em regulamentação.
Para Coelho, o momento exige realismo. O acordo Mercosul-UE representa uma oportunidade seletiva, mas também um desafio estrutural. Sem diálogo e políticas adequadas, o tratado pode acelerar processos de exclusão produtiva no campo, especialmente na pecuária leiteira. O desafio central, segundo lideranças do setor, será garantir que a transformação regulatória se traduza em desenvolvimento — e não em perda de produtores.
*Escrito para o eDairyNews, com informações de PP






