A colônia de búfalos de Landhi, em Karachi, não é apenas a maior do mundo: nas últimas décadas, ela virou uma espécie de “cidade dentro da cidade”, com um ritmo próprio, milhares de famílias produtoras e uma rotina que gira em torno de leite, comércio e, mais recentemente, energia limpa. Instalado em 6,5 km², o complexo movimenta uma cadeia que impressiona até especialistas do setor lácteo: são cerca de 400 mil animais e quase quatro milhões de litros de leite produzidos diariamente, conforme relatam autoridades locais e organizações internacionais envolvidas no projeto.
Localizada no distrito de Malir, a Colônia Leiteira de Landhi — também conhecida como Bhains Colony — abastece mais de 80% do leite consumido em Karachi. A estrutura foi criada em 1958, originalmente desenhada para receber 15 mil animais. Meio século depois, a expansão acelerada acompanhou o crescimento populacional e o aumento da demanda por laticínios, especialmente os derivados de búfalas, preferidos pela população paquistanesa pelo teor de gordura e rendimento.
Hoje, a região abriga cerca de 1.500 fazendas distribuídas em ruas estreitas, galpões improvisados e currais que funcionam 24 horas por dia. A maioria dos criadores mantém rebanhos de até 200 animais, o que reforça o caráter familiar e fragmentado da produção, apesar da escala gigantesca. Estima-se que entre 10% e 12% das búfalas sejam substituídas mensalmente, mantendo um fluxo constante de compra, venda, reprodução e descarte, grande parte dele conectado às províncias de Punjab e Sindh.
Mas o tamanho da colônia sempre trouxe um desafio proporcional: o volume de resíduos. Antes da chegada de soluções tecnológicas, cerca de 7.200 toneladas de esterco eram descartadas todos os dias sem tratamento adequado. O acúmulo afetava o ambiente e a saúde local, gerando mau cheiro, contaminação e despejo direto no mar. A cena se tornou um dos maiores problemas ambientais de Karachi.
Foi nesse cenário que surgiu o projeto que transformou a percepção pública sobre a colônia. Com financiamento da Agência Neozelandesa para o Desenvolvimento Internacional (NZAID), o plano nasceu em 2005 para converter o esterco em biogás e fertilizante. O objetivo era ambicioso: reduzir a poluição, criar uma fonte alternativa de energia e melhorar a qualidade de vida das comunidades que dependem da atividade leiteira.
Inaugurada oficialmente em 2007 com presença de autoridades do Paquistão e da Nova Zelândia, a primeira usina termelétrica movida a gás de esterco da região foi planejada para produzir 25 MW de energia. Para uma metrópole com déficit crônico de eletricidade, a iniciativa soou como um alívio — e um exemplo.
Além da geração energética, a planta passou a produzir cerca de 1.500 toneladas de fertilizante natural por dia, transformando o que antes era um problema ambiental em ativo econômico. Especialistas envolvidos no projeto destacaram, na época, que este foi o segundo empreendimento de crédito de carbono registrado no país, adicionando uma camada estratégica para atrair investimentos e consolidar o modelo.
A parceria internacional reforçou a imagem de Karachi como polo de inovação na pecuária urbana. Autoridades comemoraram a iniciativa não apenas como resposta ambiental, mas como oportunidade de desenvolvimento regional, já que milhares de famílias dependem da rotina leiteira para sobreviver.
Apesar de a Colônia de Landhi ser a mais conhecida, Karachi também abriga outras comunidades produtoras — como a Sociedade de Laticínios Al-Momin, Nagori Colony, Surjani, Bilal e Saif — que ajudam a sustentar a cadeia leiteira local. Todas juntas formam um mosaico de atividade econômica intensa, marcada por tradição, desafios e transformações.
Ao unir leite, energia e sustentabilidade, a colônia de búfalos de Karachi virou um caso emblemático de como grandes centros urbanos podem reinventar o manejo de resíduos e criar modelos que beneficiem produtores, consumidores e o meio ambiente.
*Escrito para o eDairyNews, com informações de Click Petróleo e Gás






