O preço do leite voltou a registrar queda no Rio Grande do Sul, e o Conseleite confirmou nesta quinta-feira (27/11) a projeção de R$ 2,0237 para novembro, reforçando a preocupação de produtores e indústrias diante de um ambiente de mercado cada vez mais desafiador.
A divulgação foi feita durante reunião realizada na sede do Sindilat/RS, em Porto Alegre, e consolidou mais um mês de pressão sobre a cadeia produtiva gaúcha.
O colegiado também apresentou o valor consolidado de outubro, fechado em R$ 2,2006, número 5,29% menor que o consolidado de setembro, que havia sido de R$ 2,3235.
O cálculo, desenvolvido pela Universidade de Passo Fundo (UPF), considera a movimentação dos primeiros 20 dias do mês e segue parâmetros atualizados pela Câmara Técnica em 2023, o que garante acompanhamento preciso da dinâmica de mercado.
Para o coordenador do Conseleite, Darlan Palharini, os dados refletem um cenário que exige acompanhamento criterioso. Ele explica que a combinação entre a forte concorrência internacional, especialmente durante o período de safra no Brasil, e o crescimento das importações, tem impactado diretamente a formação dos preços ao produtor.
“Esse resultado mostra a pressão que o setor lácteo brasileiro enfrenta. A entrada crescente de leite importado afeta a competitividade da produção local e reforça a necessidade de políticas públicas mais consistentes e duradouras”, afirmou.
A realidade vivida pelos produtores gaúchos não ocorre de forma isolada. O comportamento do mercado nos últimos meses evidenciou que a volatilidade internacional e o excesso de oferta são fatores que têm redesenhado o cenário competitivo.
Para muitos produtores, a combinação de custos elevados, diferenças regionais de produtividade e retração de preços coloca o planejamento de curto e médio prazos em ponto de atenção.
A reunião do Conseleite acrescentou uma perspectiva global ao debate com a participação, por videoconferência, do pesquisador sênior da Embrapa Gado de Leite, Glauco Carvalho. Ele apresentou uma análise abrangente sobre o mercado internacional, apontando que a queda nos preços não é exclusividade do Brasil.
Segundo Carvalho, diversos países vivem um momento de rentabilidade reduzida, pressionados por um aumento expressivo da produção mundial. “Todos os mercados estão sentindo essa mudança. A rentabilidade vem diminuindo em vários países, e esse panorama não é realidade apenas no Brasil”, observou.
A análise do pesquisador trouxe números reveladores: na comparação entre setembro de 2024 e setembro de 2025, o mundo produziu um bilhão de litros a mais, crescimento de 4,4% em apenas um ano. Esse volume adicional contribuiu para o que ele definiu como “excedente global de leite”, que tem influenciado preços, margens e estratégias de exportação nos principais polos produtores.
Com mais produto disponível no mercado internacional, indústrias de diversas regiões intensificaram o direcionamento de leite em pó e queijos para destinos sensíveis a preço — caso do Brasil — pressionando ainda mais a competitividade interna.
Carvalho destacou ainda que a margem operacional dos produtores enfrenta dificuldades mesmo em regiões tradicionalmente competitivas, como Estados Unidos, União Europeia e Oceania. Energias mais caras, mão de obra escassa e volatilidade de insumos continuam elevando custos. No Brasil, esses desafios se somam às diferenças estruturais entre bacias leiteiras e à dependência de políticas públicas para manter equilíbrio no mercado.
Embora o quadro seja desafiador, o pesquisador ressaltou que o setor lácteo brasileiro tem desenvolvido capacidade de reação ao longo dos anos, explorando avanços tecnológicos, melhorias na gestão e diversificação produtiva.
No entanto, ele alertou que, diante da pressão atual, é improvável uma reversão rápida de tendência no curto prazo. A expectativa é de que ajustes no mercado global e nacional ocorram de forma gradual, acompanhando ritmos de produção, consumo e política comercial.
O Conseleite reforçou que continuará monitorando a evolução mensal dos preços, oferecendo informações transparentes para orientar decisões estratégicas de produtores e indústrias. Para o colegiado, a queda projetada para novembro consolida um período de instabilidade que deve seguir exigindo ações estruturais, tanto no âmbito privado quanto no público.
A avaliação interna é de que o Rio Grande do Sul mantém protagonismo produtivo e capacidade de resiliência, mas o cenário exige coordenação e resposta rápida para evitar impactos mais profundos na base produtiva.
Com a projeção ajustada para novembro, o setor volta a debater caminhos para enfrentar a competitividade internacional, reduzir custos e fortalecer a cadeia regional, enquanto acompanha atentamente os próximos movimentos do mercado global.
*Escrito para o eDairyNews, com informações de Guia Crissiumal






