A CPI do leite instalada na Assembleia Legislativa de Rondônia reposiciona o debate sobre a crise do setor ao focar na desconexão entre crescimento produtivo e perda de rentabilidade.
Presidida pela deputada Cláudia de Jesus (PT), a comissão parte de um diagnóstico claro: produzir mais não tem garantido sustentabilidade econômica para o produtor.
O ponto central da investigação é o desequilíbrio entre custo e preço. Mesmo com aumento aproximado de 6% na produção de leite em 2025, impulsionado por investimentos em genética, infraestrutura e tecnologia, o valor pago ao produtor não acompanha essa evolução. O resultado são margens negativas recorrentes, que comprometem a continuidade da atividade e elevam o risco operacional nas propriedades.
Esse descompasso redefine prioridades dentro da cadeia. O problema deixa de ser apenas produtivo e passa a ser estrutural. A CPI pretende entender como os custos vêm superando a remuneração e quais fatores sustentam essa dinâmica. Entre eles, destaca-se a presença de múltiplos intermediários entre o campo e o consumidor final. Nesse modelo, o produtor concentra investimentos, insumos e riscos, mas captura a menor parcela do valor agregado.
Outro vetor relevante é a pressão exercida por produtos importados, especialmente leite em pó e derivados. Essa concorrência impacta os preços internos e limita a capacidade de reação do mercado local, ampliando a dificuldade de recomposição de margens. A combinação entre custos elevados, estrutura fragmentada e competição externa cria um ambiente de baixa previsibilidade econômica.
A CPI também sinaliza mudança no método de abordagem. Ao estruturar um cronograma de oitivas com produtores, técnicos e demais agentes, a comissão busca consolidar um diagnóstico mais preciso e operacional. O objetivo declarado é transformar a investigação em encaminhamentos concretos, o que indica possível impacto regulatório ou institucional ao longo do processo.
Para o empresário da cadeia láctea, o avanço da CPI traz implicações diretas. Primeiro, reforça que o problema central está na distribuição de valor e não apenas na eficiência produtiva. Segundo, coloca sob escrutínio a lógica de intermediação e formação de preços. Terceiro, evidencia que a pressão de importados já é um fator reconhecido no debate político e técnico.
A próxima etapa da comissão será a definição do cronograma de trabalho, que orientará as oitivas. Esse movimento tende a organizar a agenda do setor em torno de temas críticos já identificados: custos, preços, estrutura da cadeia e competição externa. Mais do que um levantamento de problemas, a CPI pode redefinir prioridades e influenciar decisões ao longo da cadeia produtiva em Rondônia.
*Escrito para o eDairyNews, com informações de Assembleia Legislativa do Estado de Rondônia






