A crise na Venezuela voltou ao centro do tabuleiro geopolítico regional e internacional, com potencial para gerar impactos relevantes sobre a economia brasileira, especialmente nos setores de transporte, agronegócio, energia e consumo.
Os desdobramentos ganharam novo peso após a ação militar realizada pelos Estados Unidos no último sábado (3), que resultou na prisão de Nicolás Maduro, então presidente do país.
Embora a Venezuela não seja hoje um fornecedor decisivo de petróleo em termos de volume efetivamente entregue ao mercado global, especialistas ouvidos avaliam que a crise na Venezuela amplia o chamado “prêmio de risco” geopolítico, elemento que costuma pressionar preços e aumentar a volatilidade no mercado internacional de energia. Esse movimento, ainda que indireto, tende a alcançar o Brasil.
Para João Alfredo Lopes Nyegray, mestre e doutor em internacionalização e estratégia e professor de Negócios Internacionais e Relações Internacionais da PUCPR, os efeitos mais imediatos recaem sobre setores em que o petróleo pesa diretamente na estrutura de custos. Entre eles estão transporte e logística — como frete rodoviário, aviação, navegação e custos portuários —, o agronegócio, a indústria intensiva em energia e as cadeias de consumo.
No caso do campo, Nyegray ressalta que o uso de diesel em máquinas agrícolas e no escoamento da produção torna o setor particularmente sensível a qualquer oscilação nos preços dos combustíveis. Essa dinâmica afeta desde grãos até proteínas animais e lácteos, que dependem fortemente de logística refrigerada e transporte de longa distância.
“O diesel ‘viaja’ por toda a economia brasileira. Quando sobe, encarece o custo de mover tudo, do alimento ao insumo industrial, e esse aumento aparece rapidamente nos preços ao produtor e, com algum atraso, nos preços ao consumidor”, analisa o professor.
Segundo ele, a crise na Venezuela tende a pressionar os preços dos combustíveis no Brasil não por escassez física, mas pela percepção de risco. O país segue parcialmente exposto à referência internacional, seja por importações pontuais de derivados, seja pela paridade como base de precificação e pela própria dinâmica competitiva do setor energético.
Nyegray pondera, contudo, que o repasse desses choques não é automático. Ele depende da política de preços adotada e do timing das decisões. “Pode haver absorção parcial ou repasse mais rápido, mas a tendência é o aumento da incerteza e a maior dificuldade de ancorar expectativas de preço, especialmente no diesel, que é o insumo transversal da logística brasileira”, afirma.
Além dos custos, a crise na Venezuela também levanta questionamentos sobre inflação e juros no Brasil. Atualmente, a taxa básica está em 15% ao ano, definida pelo Comitê de Política Monetária do Banco Central no fim de 2025. Para Adriano Pires, sócio-diretor do Centro Brasileiro de Infraestrutura e doutor em economia industrial, o conflito pode influenciar esse debate.
Na avaliação de Pires, combustíveis mais baratos ajudam no controle inflacionário e podem abrir espaço para uma eventual redução dos juros. Ele destaca que, diferentemente de outros conflitos internacionais, a situação venezuelana não tende, necessariamente, a elevar o preço do barril.
“A Venezuela tem hoje baixa relevância na produção mundial. Se houver entrada de empresas americanas, o cenário pode ser de investimento, aumento da produção e maior oferta. No curto prazo, isso pode contribuir para pressionar o preço do petróleo para baixo, que já vem recuando porque a oferta global supera a demanda”, explica.
Ainda assim, o ambiente político adiciona uma camada extra de incerteza. Para Eduardo Yamashita, COO da Gouvêa Ecosystem, a crise na Venezuela ocorre em um momento sensível para o Brasil, que enfrenta um ano eleitoral. “A instabilidade política e econômica cria um clima de cautela, trava investimentos e pode desestabilizar o consumo”, avalia.
No setor de alimentos e bebidas, os efeitos também merecem atenção. Em análise publicada pela Mercado&Consumo, Cristina Souza, CEO da Tanjerin, observa que a intervenção norte-americana, ainda que apresentada como tentativa de estabilização, tende a gerar turbulências relevantes nas cadeias regionais.
Segundo ela, após anos de produção agrícola quase inexistente e de importações reduzidas, a Venezuela pode se transformar rapidamente em um mercado atrativo, porém desorganizado, pressionando cadeias de suprimento e logística.
Para o Brasil, maior exportador de alimentos da América Latina, a crise na Venezuela também pode abrir oportunidades. Em um cenário de maior estabilidade institucional, o país vizinho pode voltar a demandar volumes significativos de carne, soja, açúcar e derivados, reposicionando fluxos comerciais regionais — com impactos indiretos sobre custos, preços e estratégias das cadeias agroindustriais.
*Escrito para o eDairyNews, com informações de Mercado & Consumo






