O leite importado voltou ao centro do debate no setor lácteo brasileiro após a Cooperativa Dália, com sede em Encantado (RS), reconhecer a importância da recente ação da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab), mas alertar que a medida, isoladamente, não é suficiente para enfrentar a crise vivida pelos produtores de leite no país.
A cooperativa está entre as 40 empresas selecionadas no programa federal de aquisição de leite em pó, que destina R$ 106 milhões ao setor. Desse total, a Dália deverá receber cerca de R$ 6 milhões, recurso que será direcionado ao apoio operacional em um momento de mercado pressionado por excesso de oferta e margens reduzidas.
Segundo o presidente do Conselho de Administração da Dália, Gilberto Piccinini, o principal valor da iniciativa está menos no impacto financeiro direto e mais no reconhecimento oficial da gravidade do cenário. Na avaliação do dirigente, a decisão da Conab representa um sinal importante de que o governo federal compreende a dimensão do problema enfrentado pela cadeia produtiva do leite.
Piccinini contextualiza que a cooperativa registra um faturamento mensal em torno de R$ 70 milhões apenas com leite, o que relativiza o peso econômico do aporte recebido. Ainda assim, ele observa que o recurso chega em um momento sensível, marcado por preços deprimidos ao produtor e custos de produção elevados. Para o executivo, a ação pública funciona como uma sinalização política relevante, indicando que há instrumentos disponíveis para intervenção quando o mercado entra em desequilíbrio.
O dirigente destaca que a produção nacional de leite cresceu aproximadamente 10% nos últimos 12 meses, ampliando a pressão sobre os preços em um ambiente já fragilizado. No entanto, na visão da Dália, o fator mais crítico para o desequilíbrio atual é a entrada de leite importado, especialmente oriundo de países do Mercosul, que operam sem cotas específicas para o produto.
De acordo com Piccinini, essa dinâmica cria uma assimetria competitiva relevante, ao permitir que volumes significativos de leite e derivados ingressem no mercado brasileiro em condições que não refletem os custos enfrentados pelos produtores locais. Diante disso, a cooperativa defende a adoção de mecanismos de taxação ou regulação das importações, a serem discutidos no âmbito do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC).
Outro ponto sensível levantado pela liderança da Dália diz respeito à fiscalização do produto importado. Embora a reidratação de leite em pó seja proibida no Brasil, o presidente afirma que essa prática ocorre com leite estrangeiro, o que amplia artificialmente a oferta interna e intensifica a pressão sobre as cotações. Para ele, o combate a esse tipo de irregularidade deveria fazer parte de uma agenda estrutural para o setor.
Na avaliação da cooperativa, a ação da Conab demonstra que existem instrumentos disponíveis para mitigar crises conjunturais, mas reforça que soluções duradouras exigem políticas mais amplas e coordenadas. “O setor precisa de medidas estruturais”, sustenta Piccinini, ao defender um conjunto de ações que envolva comércio exterior, fiscalização e previsibilidade regulatória.
Quanto às perspectivas de mercado, a expectativa da Dália é de que algum sinal de reequilíbrio comece a surgir apenas entre os meses de março e abril. Até lá, o dirigente alerta para o risco de saída de produtores da atividade, movimento que pode comprometer a oferta no médio prazo. Na leitura da cooperativa, o atual benefício ao consumidor, que encontra preços mais baixos no varejo, pode se transformar em escassez futura se a base produtiva continuar encolhendo.
Internamente, a Dália afirma adotar estratégias para proteger seus associados durante o período de crise. Entre as medidas, a cooperativa destaca o pagamento de valores acima da média de mercado pelo leite entregue e o fornecimento de insumos a preço de custo, como forma de reduzir despesas e preservar a viabilidade econômica dos produtores.
Ao final, a cooperativa reforça que reconhece o esforço do governo federal por meio da Conab, mas insiste que, sem enfrentar o impacto do leite importado, qualquer ação tende a ter efeito limitado sobre a sustentabilidade do setor lácteo brasileiro.
*Escrito para o eDairyNews, com informações de Grupo A Hora






