Produto trazido de fora faz preço do leite reduzir nos mercados, mas é apontado vilão de debandada na cadeia nacional. Na contramão, cooperativa aposta em tecnologia para incentivar a atividade.
Marcos Bortolini: “Não tem como proibir, mas colocar um limite de percentual de importação”. Foto: Jônatas Araújo/ JdeB. Leite
Marcos Bortolini: “Não tem como proibir, mas colocar um limite de percentual de importação”. Foto: Jônatas Araújo/ JdeB.
Pela primeira vez após 24 anos, Marcos Bortolini foi tomar café da manhã na feira de Francisco Beltrão. Um ato, para a maioria, corriqueiro, mas até então inacessível para ele, produtor de leite.

Mesmo sendo reconhecido – ganhador de prêmios dentro e fora do Paraná por conta da genética do rebanho -, Marcos não resistiu aos altos custos de produção. Agora, está se dedicando às lavouras de soja, que dispensam atenção diária, incluindo sábados, domingos e feriados, como na cadeia leiteira.

“Meu avô comprou a propriedade em 1957 e desde 75 começou a produzir leite aqui. Em 2000 eu assumi e profissionalizei a propriedade. Tinha 80 animais, que foram leiloados. Botei na balança as dívidas, mão de obra, qualidade de vida. Não estava compensando. Nos últimos meses trabalhei praticamente no vermelho”, explica. Marcos tem propriedade na comunidade de Meninos Jesus, interior de Francisco Beltrão.

Produção cresce apesar da debandada de produtores

O levantamento da Secretaria de Agricultura e do Abastecimento do Paraná (Seab) prova que a desistência de Marcos não é um fato isolado. Em 2017, havia 15.268 produtores de leite nos 27 municípios que compôem a microrregião de Francisco Beltrão. Apenas seis anos depois, o número regrediu 35,5%: 9.850.

Na contramão, a produção aumentou 4,1% – de 763 milhões de litros para 795. Conforme o sociólogo rural Christophe de Lannoy há uma tendência de concentração da atividade em menor contingente de propriedades. “Pra minimizar isso precisamos fazer com que o cooperativismo e assistência técnica se desenvolvam”, diz.

Marcos Bortolini no espaço que por 24 anos foi ocupado pelas vacas de leite. Levantamento da Seab mostra que 35% dos produtores da região deixaram a atividade. Importação é apontada como alívio do consumidor final e vilão da cadeia produtiva brasileira. Foto: Jônatas Araújo/ JdeB.
Preço para o consumidor final e importação

Em 2022, o preço do leite nos mercados explodiu. De acordo com as pesquisas do Grupo de Economia, Agricultura e Desenvolvimento, da Unioeste, em agosto de 2021 o consumidor de Francisco Beltrão pagou, em média, R$ 4,18 no litro do leite. Menos de um ano depois, em julho de 22, a média foi de R$ 6,35.

A alta fez com que as importações do produto de países como Argentina e Uruguai — onde os custos de produção são mais baixos e, consequentemente, o preço para venda — ganhassem vez. No primeiro semestre de 2023, segundo o Ministério da Agricultura, o Brasil importou leite 300% a mais em comparação ao mesmo período de 2022. A estratégia, para o consumidor final, surtiu efeito. Em março de 2024, o valor médio do litro de leite nos mercados foi de R$ 4,75.

Expansão da importação em 2023

Em 2023 houve uma expansão da importação de leite em pó e derivados que reduziu a demanda interna, contribuindo para queda importante do preço no varejo. Em dezembro de 2023, o valor médio do litro de leite em Francisco Beltrão acumulava uma redução de 10,37% no período de 12 meses”, acrescenta o economista da Unioeste José Maria Ramos.

Se a importação aliviou o bolso da população em geral, ela é apontada como agravante das dificuldades financeiras pela cadeia leiteira nacional.

“Trouxe baixa pra venda do produtor”, afirma Fábio Cossa, presidente da Aproleite, associação formada por 180 produtores do Sudoeste do Paraná.

A dicotomia leite nacional-estrangeiro mobilizou a classe. Na região, a Amsop promoveu audiências com autoridades estaduais. Na pauta, um pedido de contrapartida às importações. Para proteger os produtores paranaenses, em abril, o Governo do Estado anunciou uma taxação de 7% para o leite em pó e queijo vindos de fora do país — por fazer parte da cesta básica, os dois não podem alcançar a alíquota cheia, de 19,5%.

“A legislação é recente, portanto os reflexos nos preços ainda estão incertos. Mas como há uma alta para as condições de importação, e já se aproxima do período de inverno e entressafra, o preço do leite tende a aumentar”, ressalta José Maria Ramos.

Fábio Cossa acredita que a medida, entretanto, não vai resolver 100% do problema. “Vai ajudar. Temos que ter fé, mas imagino que mais produtores vão parar, as vacas irão pra outras propriedades e a produção vai aumentar”, diz o produtor e líder da Aproleite.

Limite de importação

Marcos Bortolini não prevê retornar ao ramo, mas segue acompanhando o desenrolar da atividade. Ele defende, como solução, um limite de importação. “Enquanto tiver um custo alto de produção não resolverá. O produtor não quer migrar, mas ser valorizado. A atividade é árdua, sábado, domingo e feriado. Se o leite subir novamente, o povo não vai ter dinheiro pra comprar. Não tem como proibir, mas pode-se colocar um percentual de importação. Se o Brasil produz, por exemplo, 10 milhões de litros, vamos importar 3%.”

Cooperativa incentiva produtores

Como incentivo aos cooperados, a Frimesa desenvolve o programa Leite Mais Saudável. A cooperativa aplica recursos nas propriedades em busca de melhorar a genética e trazer produtividade e qualidade no leite.

Diminuiu o número de produtores na microrregião, mas a produção aumentou. Foto: Frimesa/divulgação.

“A gente tem notado a migração dos produtores. Por ser uma atividade que necessita de atenção e, às vezes, a família vai ficando pequena, o cara acaba vendendo, porque se contratar alguém não viabiliza o negócio. Hoje, assim como no mundo todo, uma tendência é o número de produtores diminuir, o cara se especializar e focar na produtividade, ou seja, ter menos vacas produzindo mais. O leite garante renda mensal, mas as exigências do mercado pedem uma estrutura diferente pro pequeno produtor”, explica Erivelto Costa, gerente da divisão de leite da Frimesa. Somente em 2023, participaram do programa Leite Mais Suadável 2,1 mil produtores ligados à cooperativa no Paraná.

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Embora o vírus até agora não tenha mostrado nenhuma evidência genética de adquirir a capacidade de se espalhar de pessoa para pessoa, as autoridades de saúde pública estão monitorando de perto a situação da vaca leiteira como parte dos esforços gerais de preparação para a pandemia.

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