O setor lácteo da Índia atravessa um momento decisivo em sua trajetória de inserção internacional, impulsionado por transformações no comércio global e pelas negociações do acordo de livre comércio entre Índia e União Europeia (FTA Índia–UE).
Embora o país seja responsável por aproximadamente 25% da produção mundial de leite, sua participação no comércio internacional de lácteos permanece inferior a 1%, revelando uma assimetria estrutural entre escala produtiva e presença global.
O FTA firmado entre Índia e União Europeia, descrito por autoridades como um dos mais abrangentes já negociados, estabelece a eliminação gradual de tarifas para cerca de 96% do comércio bilateral. Ainda assim, produtos considerados sensíveis — como lácteos e cereais — ficaram fora da liberalização tarifária inicial. A exclusão reflete uma convergência de interesses entre as partes, voltada à proteção de produtores domésticos e à estabilidade dos sistemas agrícolas.
Da força doméstica à projeção internacional
A entrada da cooperativa Amul no mercado espanhol é vista por analistas como um indicativo das ambições globais do setor lácteo indiano. Mais do que uma expansão comercial, o movimento representa a aplicação de um modelo cooperativo baseado em escala, eficiência logística e baixo custo operacional em mercados maduros, onde regularidade de fornecimento, qualidade padronizada e preços competitivos são determinantes.
Especialistas apontam que as cooperativas indianas contam com vantagens estruturais relevantes: grande base produtiva, sistemas de captação consolidados com foco no produtor, redes de distribuição institucionalizadas ao longo de décadas e maior capacidade de absorver pressão sobre margens quando comparadas a empresas privadas. Esses fatores ampliam a competitividade do modelo cooperativo em ambientes externos mais exigentes.
Política comercial e proteção agrícola
A decisão de manter os lácteos fora da redução tarifária imediata no FTA Índia–UE não é meramente técnica. O setor ocupa papel central na economia rural indiana, sustentando milhões de pequenos produtores. A abertura abrupta a importações, muitas vezes subsidiadas, poderia gerar impactos diretos sobre renda, emprego e estabilidade social.
Do ponto de vista estratégico, essa escolha atende a dois objetivos centrais. O primeiro é proteger a renda rural, limitando a exposição a choques externos. O segundo é preservar a estabilidade política, dado o peso econômico e cultural do leite e de seus derivados no país. Ao mesmo tempo, a manutenção de tarifas não impede a busca por inserção internacional, mas indica uma estratégia gradual e controlada.
Mercado interno: volume versus valor agregado
No mercado doméstico, o setor lácteo indiano apresenta uma clara segmentação. Cooperativas tradicionais continuam sustentando o abastecimento com foco em volume e acessibilidade. Paralelamente, marcas emergentes avançam em segmentos premium, produtos orgânicos e soluções com maior teor proteico, acompanhando mudanças no consumo urbano.
Com consumo per capita de lácteos ainda duas a três vezes inferior ao observado em economias desenvolvidas, o crescimento futuro tende a depender menos da expansão do volume e mais da qualificação do portfólio. Produtos de maior valor agregado, como iogurtes aromatizados, bebidas fortificadas e aplicações funcionais, ganham espaço nas decisões de compra.
Implicações estratégicas para o setor
A interação entre acordos comerciais e ambições globais redefine o posicionamento do setor lácteo da Índia. A postura adotada no FTA com a União Europeia sinaliza que o país pretende ampliar sua presença internacional sem comprometer a base produtiva doméstica. Nesse contexto, o avanço externo depende da capacidade de explorar nichos de exportação, desenvolver produtos de maior valor agregado e construir parcerias comerciais sustentáveis.
O setor lácteo indiano evolui, assim, de um modelo essencialmente doméstico para uma atuação internacional mais estruturada, com potencial para exportar não apenas produtos, mas também modelos cooperativos e eficiência de cadeia produtiva.
*Escrito para o eDairyNews, com informações de Dairy Dimension






