ESPMEXENGBRAIND
14 jan 2026
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Sem subsídios diretos, o leite reage a custos, importações e preços, transferindo o ajuste quase integralmente ao produtor 🐄
A ausência de subsídios explícitos no leite faz da política econômica um fator decisivo na margem do produtor 📊
A ausência de subsídios explícitos no leite faz da política econômica um fator decisivo na margem do produtor 📊

Subsídios no leite são frequentemente citados no debate público, mas raramente percebidos de forma direta pelo produtor brasileiro.

Na prática, não existe hoje no Brasil um programa recente, claro e mensurado de subsídio direto à produção de leite nas bases oficiais. O impacto da política pública ocorre por caminhos indiretos, por meio de decisões macroeconômicas, regras de mercado, crédito, importações e condução da economia, que acabam influenciando custo de produção, oferta, preços e margem na porteira.

Quando o tema surge, a pergunta do produtor é objetiva: onde isso entra no meu bolso? A resposta não vem em forma de cheque. Diferentemente de outros países, o produtor brasileiro não recebe pagamento direto para produzir leite. O efeito se manifesta de maneira difusa, porém constante, moldando o ambiente em que a atividade acontece e transferindo o ajuste quase integralmente para quem está dentro da fazenda.

Os preços do leite ajudam a entender essa dinâmica. Dados do Cepea indicam forte oscilação ao longo de 2025 e no início de 2026. Em janeiro de 2025, o preço médio Brasil do leite líquido ao produtor foi de R$ 2,6492 por litro, com avanço mensal e ganho real frente ao mesmo período do ano anterior. A partir do segundo semestre, no entanto, a pressão aumentou de forma significativa.

Em outubro de 2025, o preço médio real caiu para R$ 2,2996 por litro, recuo de 21,7% em relação a outubro de 2024. Em novembro, estados como São Paulo, Paraná, Santa Catarina, Goiás e Minas Gerais registraram valores próximos ou abaixo de R$ 2,20 por litro. No início de 2026, o Cepea voltou a apontar preços baixos em comparação histórica, com expectativa de recuperação apenas sazonal entre abril e agosto.

A relação com os subsídios é direta justamente pela ausência deles. Sem mecanismos de sustentação de renda ou proteção mais clara, o preço do leite reflete quase exclusivamente o balanço entre oferta, demanda e importações. Quando há excesso de leite ou entrada maior de produto estrangeiro, o ajuste é rápido e recai sobre o produtor.

Do lado dos custos, o cenário segue apertado. O custo operacional efetivo médio subiu 0,52% entre setembro e outubro de 2025, puxado principalmente por defensivos, segundo indicadores do Cepea. A alimentação permanece como o principal fator de pressão. O milho chegou a exigir 28,4 litros de leite para a compra de uma saca de 60 quilos, piora de 7,1% em relação a setembro de 2025.

Sem subsídio à alimentação, equalização de custos ou políticas de amortecimento, a margem desaparece rapidamente quando o preço do leite não reage. Na prática, o produtor precisa produzir mais litros apenas para cobrir o custo do cocho. Sistemas com menor escala, gestão menos ajustada ou dietas pouco eficientes ficam mais expostos à volatilidade.

A resposta da oferta também reflete esse ambiente. O Brasil produziu cerca de 37 bilhões de litros de leite em 2025, crescimento de 3,5% sobre 2024, segundo o Cepea, estabelecendo um novo recorde. Parte desse avanço veio da recuperação após os efeitos da seca e do calor registrados em 2024 e no início de 2025, que haviam reduzido a produção em algumas regiões.

Para 2026, a projeção é de crescimento mais moderado, entre 2% e 2,5%. Sem política de estímulo direto, o comportamento do produtor segue o padrão clássico: expande quando o preço permite e reduz custos quando o cenário aperta. O ICAP-L indicou recuo de 0,7% entre dezembro de 2024 e janeiro de 2025 em estados relevantes, sinalizando maior cautela.

As importações completam o quadro. Em outubro de 2025, as compras externas de lácteos cresceram 8,4%, somando 214,73 milhões de litros em equivalente leite. Esse volume entrou justamente em um período de maior oferta doméstica. Sem tarifas ou mecanismos de compensação mais robustos, o produto importado pressiona o mercado interno e reduz o poder de negociação do produtor com a indústria.

O câmbio atua como pano de fundo permanente. Com o real valorizado, importar se torna mais barato. Quando ocorre desvalorização, o custo sobe, mas o repasse ao produtor nem sempre acompanha no mesmo ritmo.

O efeito real da política de subsídios hoje é indireto e silencioso. A ausência de instrumentos claros faz com que o ajuste de mercado recaia sobre o produtor, torne a eficiência uma obrigação, aumente a sensibilidade à decisão de investir ou sair da atividade e transforme gestão de custos e fluxo de caixa em fatores tão críticos quanto a produção em si.

No início de 2026, o alerta do Cepea foi de cautela. Com crescimento econômico moderado, oferta relativamente controlada e preços em patamar baixo, as margens tendem a ser menores do que em 2024 e no primeiro trimestre de 2025. O espaço para melhora depende da reação do consumo e da indústria. Nesse contexto, entender como a política pública afeta o leite, mesmo sem subsídios diretos, deixa de ser teoria e passa a ser estratégia de sobrevivência.

*Escrito para o eDairyNews, com informações de Agronews

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