O mercado de lácteos atravessa um momento de maior pressão externa, com custos logísticos e energéticos em alta, mas mantém equilíbrio sustentado por uma demanda que não cede.
A análise é de Cristina Alvarado, head de dairy insights da NZX, que aponta as tensões no Oriente Médio como fator central na reorganização recente do comércio global.
O principal impacto vem do aumento dos custos de frete e seguro, associados aos riscos nas rotas que passam pelo Estreito de Hormuz e à alta do petróleo. Esse encarecimento já influencia decisões de compra e fluxos comerciais, mesmo em regiões menos expostas diretamente. No caso da Nova Zelândia, embora a posição geográfica atenue efeitos diretos, os custos mais altos já aparecem de forma indireta nas dinâmicas de exportação.
Essa mudança ficou evidente nos eventos recentes do Global Dairy Trade. No evento 400, o crescimento das compras foi mais forte no sudeste asiático, no Oriente Médio e na América Central e do Sul, sinalizando uma redistribuição da demanda em resposta ao novo cenário logístico.
Do lado da oferta, o avanço é consistente nas principais regiões exportadoras, mas ainda sem gerar excesso. A Nova Zelândia registrou recorde de captação para fevereiro, com crescimento relevante tanto em sólidos quanto em volume. As projeções indicam continuidade desse ritmo nos meses seguintes. Nos Estados Unidos, a produção também avançou, apoiada pela expansão do rebanho, que atingiu o maior nível em mais de 30 anos. A Argentina apresentou crescimento expressivo, reforçando o quadro de aumento generalizado da oferta.
Ainda assim, em alguns mercados, como o norte-americano, os volumes vieram ligeiramente abaixo do esperado, o que limita a pressão sobre preços. Esse detalhe ajuda a explicar por que o aumento da produção não tem sido suficiente para desequilibrar o mercado.
Na demanda, o destaque segue com os produtos básicos. O leite em pó desnatado e as gorduras lácteas mostram maior firmeza, impulsionados por disponibilidade mais restrita em certas regiões. Nos Estados Unidos, o mercado de leite em pó desnatado reagiu com força diante da oferta limitada no mercado spot, alcançando níveis não vistos desde 2022. Ao mesmo tempo, a demanda global por proteína permanece sólida, refletindo mudanças no consumo.
Os resultados do GDT em março capturam esse movimento. O evento 399 registrou alta relevante do índice, puxado principalmente por leite em pó desnatado, manteiga, muçarela e gordura anidra. Já o evento 400 mostrou estabilidade geral, mas com diferenças entre produtos: o leite em pó desnatado e a gordura anidra continuaram em alta, enquanto o leite em pó integral recuou.
No comércio internacional, o desempenho segue heterogêneo. A Nova Zelândia aumentou ligeiramente o volume exportado em fevereiro, mas com queda no valor total, refletindo preços mais fracos no início do ano. Por produto, o leite em pó integral avançou, enquanto o desnatado caiu de forma acentuada. As gorduras tiveram melhor desempenho, com destaque para a gordura anidra.
Entre os principais mercados, a China segue reduzindo importações, enquanto os Estados Unidos ampliam exportações. A Argentina também cresce, ao passo que a Austrália registra retração. A Europa apresenta avanço moderado em volume e valor.
O quadro geral aponta para um mercado de lácteos equilibrado, mas mais sensível a fatores externos. Custos elevados de energia e logística devem continuar influenciando decisões comerciais. Ainda assim, a demanda resiliente tem sido suficiente para sustentar a estabilidade de preços, mesmo diante da expansão da oferta.
*Escrito para o eDairyNews, com informações de Farmers Weekly






