A inadimplência rural chegou a 9,7% em agosto de 2026, o maior nível da série do Banco Central, mas esse número mostra apenas a parte mais visível do problema.
A carteira problemática do crédito rural soma R$ 205 bilhões, ou 23,8% de tudo o que está financiado, segundo levantamento do Cepea, da Esalq/USP. Três quartos desse valor ficam fora da taxa que ganha as manchetes.
O grosso está em renegociações e prorrogações: R$ 105 bilhões foram renegociados e R$ 31 bilhões, prorrogados, contra R$ 48 bilhões efetivamente inadimplentes e R$ 21 bilhões em atraso. Em agosto de 2024, o total problemático era de R$ 95 bilhões, ou 12,5% da carteira. Em dois anos, o saldo mais que dobrou, e só o renegociado foi de R$ 39 bilhões para R$ 105 bilhões.
A explicação mais intuitiva, a de que o produtor se endividou demais, não resiste aos números. Em 2025, a dívida bancária equivalia a 94% da renda da agropecuária, dentro da faixa de 87% a 109% observada entre 2013 e 2019, período em que a inadimplência de dezembro ficou em média em 2,1%. Em dezembro de 2025, ela fechou em 6,6%.
Em 2014, com a dívida em 109% da renda, o atraso era de 1,3%. Segundo os pesquisadores Lucilio Alves e Geraldo Barros, autores do estudo, o que mudou não foi o tamanho da dívida, e sim o seu custo, a sua composição e a sua distribuição.
O custo é o primeiro ponto. A taxa média do crédito rural para pessoas físicas passou de 6,3% ao ano em 2021 para 12,2% em 2025, enquanto a Selic média saltou de 4,4% para 14,3%. A conta anual de juros, uma estimativa de ordem de grandeza feita sobre a carteira, foi de cerca de R$ 34 bilhões para cerca de R$ 99 bilhões, o que equivale a passar de 3,9% para 11,4% da renda agropecuária.
Há ainda um ângulo que o produtor sente no bolso: o juro medido em produto. Em 2020 e 2021, quem tomou crédito devolveu menos produto do que levou, com índices de −33% e −19%. Em 2022 e 2023, a mesma dívida passou a custar 16% e 29% ao ano em produto, e a inadimplência começou a subir em meados de 2023.
O atraso também tem endereço: o crédito a taxas de mercado, que acompanha a Selic. Nessas operações a inadimplência é de 17,6%, contra 3,8% nas de taxas controladas, e, com cerca de 43% do saldo das pessoas físicas, elas concentram cerca de 77% do saldo em atraso. A fatia desse tipo de crédito nas contratações saiu de 5% em 2013 para 47% em 2023.
Nem todo o campo vive a mesma crise. Entre 2021 e 2025, os preços dos grãos caíram 28% em termos reais, enquanto os da pecuária subiram 12% e os de cana e café, 55%. A renda do ramo agrícola foi de R$ 599 bilhões para R$ 539 bilhões; a do ramo pecuário, de R$ 270 bilhões para R$ 331 bilhões.
A relação de troca com fertilizantes ajuda a explicar o contraste. Uma tonelada de DAP, que equivalia em média a 16,7 sacas de soja entre 2010 e 2019, exigiu 29,1 sacas em 2025. Na pecuária, a arroba ficou estável, ureia e potássio estão perto da média histórica e só o fosfatado segue caro.
O mapa do problema também é desigual. O Rio Grande do Sul concentra 13% da carteira do país, mas 21% da carteira problemática e 27% de todo o saldo renegociado e prorrogado, com inadimplência de 3,2%, abaixo da média nacional. Ali, as prorrogações vieram após as enchentes de maio de 2024 e, de 2025 em diante, foram sendo convertidas em renegociações.
Nos estados de grãos do Centro-Oeste e do Matopiba, a história é outra: a inadimplência é de 8,8% da carteira em Goiás, 7,4% no Mato Grosso do Sul e 6,3% em Mato Grosso, e supera 15% no Maranhão e no Tocantins, com renegociações proporcionalmente menores. Nesses estados, a perda de margem já virou atraso.
O problema, além disso, já ultrapassou a porteira. Dos 517 pedidos de recuperação judicial do agronegócio no primeiro trimestre de 2026, levantados pelo NEOT, 212 (41%) vieram de outros elos da cadeia: 83 de revendas de insumos, 62 de agroindústrias e usinas, 41 de logística e armazenagem e 26 de indústrias de insumos. O passivo total é de R$ 38 bilhões, dos quais R$ 31,5 bilhões em dívidas acima de R$ 30 milhões.
Parte da dívida, ainda, nem aparece nas estatísticas bancárias. O investimento agropecuário cresceu 71% entre 2019 e 2025, de R$ 152 bilhões para R$ 260 bilhões, e 64% do investimento de 2025 veio de fora do crédito rural, de recursos próprios, CPRs, financiamento de fornecedores e leasing. O estoque de CPRs em circulação chegou a R$ 561 bilhões, e os dados disponíveis não permitem separar capital próprio de dívida.
A resposta oficial mais ambiciosa, até aqui, alcançou pouco. A MP 1.376/2026, que a expectativa do governo apontava para até R$ 120 bilhões, havia renegociado R$ 5,98 bilhões até 5 de outubro, cerca de 5% do estimado. Apenas 1,3% foi dívida de investimento, e 80% do valor ficou no Rio Grande do Sul. O Banco do Brasil, maior credor rural do país, renegociou pouco mais de R$ 430 milhões, contra R$ 3,17 bilhões do Sicredi.
Se a tese dos autores estiver certa, a saída não é o alongamento generalizado, e sim separar, caso a caso e com base nas contas da fazenda, quem tem problema de liquidez de quem tem problema de solvência. Para isso, faltam três números: a inadimplência por finalidade, a taxa das renegociações bilaterais e a dívida fora do sistema financeiro. Sem eles, a taxa de 9,7% seguirá sendo um retrato parcial.
*Produzido pela eDairyNews, com informações publicadas por CEPEA






