O preço do leite pago ao produtor no Rio Grande do Sul registrou uma queda expressiva em 2025, superando com folga a redução observada nos custos de produção e ampliando o desequilíbrio econômico da atividade.
Embora o custo do leite cru tenha encerrado o ano em retração, o movimento não foi suficiente para neutralizar a perda de receita na ponta produtiva.
De acordo com levantamento da Federação da Agricultura do Estado do Rio Grande do Sul (Farsul), o Índice de Insumos para Produção de Leite Cru (ILC) acumulou deflação de 3,62% ao longo de 2025. No mesmo período, o valor médio recebido pelo produtor pelo litro do leite caiu 19%, evidenciando uma deterioração significativa das margens.
A redução dos custos esteve concentrada principalmente em itens ligados à nutrição animal e à base produtiva. Os fertilizantes apresentaram queda de 2,2% no acumulado do ano, refletindo um ambiente internacional de preços mais moderados. A silagem recuou 8,8%, enquanto os concentrados tiveram retração de 4,3%, contribuindo para aliviar parcialmente o custo alimentar dos rebanhos.
Segundo a Farsul, esse movimento esteve associado, em parte, à expectativa de recuo nos preços do milho e da soja, insumos centrais para a formulação de rações. A perspectiva de custos mais baixos com grãos ao longo do início de 2026 tende a manter algum alívio sobre a estrutura de gastos, especialmente nos sistemas mais intensivos.
Apesar disso, outros componentes continuaram exercendo pressão relevante sobre o custo de produção. O sal mineral registrou alta de 10,6% em 2025, enquanto a energia elétrica avançou 6,2% no acumulado do ano. Os combustíveis também subiram, ainda que de forma mais moderada, com variação positiva de 1,6%.
Esse comportamento heterogêneo dos insumos impediu uma queda mais acentuada do custo total e limitou o impacto positivo da deflação observada em itens-chave. Na prática, o produtor enfrentou uma situação em que o alívio nos custos ocorreu em ritmo muito inferior à desvalorização do produto final.
A diferença entre a queda do preço do leite e a redução dos custos chama atenção pela magnitude. Enquanto o ILC recuou pouco mais de três pontos percentuais, o valor pago ao produtor caiu quase cinco vezes mais. O resultado foi um estreitamento significativo da rentabilidade, com impactos diretos sobre fluxo de caixa, capacidade de investimento e planejamento da atividade.
Esse cenário reforça a vulnerabilidade estrutural da produção leiteira frente a movimentos de mercado, especialmente quando há desacoplamento entre preços ao produtor e custos operacionais. Em contextos como esse, decisões relacionadas à escala, eficiência produtiva, gestão de custos e diversificação de receitas ganham peso estratégico.
Para agentes da cadeia e formuladores de política setorial, os dados também funcionam como um sinal de alerta. A persistência de ciclos de preços baixos, mesmo em ambientes de custos relativamente mais favoráveis, tende a acelerar processos de saída de produtores menos capitalizados e a concentração da produção.
Assim, embora a queda nos custos em 2025 represente um fator positivo isolado, o comportamento do preço do leite se consolidou como o principal vetor de pressão sobre a sustentabilidade econômica da atividade no Rio Grande do Sul, encerrando o ano com um balanço desfavorável para o produtor.
*Escrito para o eDairyNews, com informações de Agro Estadão






