A aposta da Piracanjuba em proteína marca uma mudança estratégica diante de um setor lácteo que deixa de competir apenas por volume e passa a buscar valor.
Em um ambiente de maior produtividade no campo e pressão constante sobre margens, a empresa direciona investimentos para whey protein, suplementos e verticalização como forma de reposicionamento competitivo.
O movimento ocorre em um contexto de transformação estrutural. A cadeia láctea brasileira entra em um novo ciclo após anos de volatilidade, combinando maior eficiência produtiva com consolidação. Segundo Guilherme Jank, o setor nunca esteve tão alinhado à demanda por produtos proteicos.
Nos últimos dez anos, a produtividade média por vaca avançou de 4,5 para 7 litros por dia, ao mesmo tempo em que pequenos produtores deixaram a atividade, pressionados por custos elevados e margens negativas. O resultado é uma base mais enxuta, com matéria-prima de melhor qualidade, mais rica em proteína e gordura.
Esse novo perfil do leite altera diretamente o potencial industrial. Com matéria-prima mais qualificada, cresce a viabilidade de desenvolver produtos de maior valor agregado, como whey protein, bebidas enriquecidas e iogurtes funcionais. A lógica deixa de ser apenas processar volume e passa a extrair valor.
Ainda assim, a indústria enfrenta limites claros no modelo tradicional. O crescimento sustentado por escala e preço competitivo encontra restrições em dois pontos. De um lado, a volatilidade dos custos de insumos como milho e soja reduz a previsibilidade da oferta. De outro, a renda do consumidor limita a capacidade de repasse de preços, comprimindo margens ao longo da cadeia.
É nesse ponto que a estratégia da Piracanjuba ganha relevância. Com faturamento de 12 bilhões de reais em 2025, a empresa direciona esforços para reduzir a dependência de produtos básicos. O principal vetor é o whey protein, derivado do soro do leite, que deixou de ser tratado como resíduo para se tornar base de uma categoria em expansão.
Para capturar esse valor, a companhia investiu 612 milhões de reais em uma nova fábrica no Paraná, dedicada ao processamento do soro e produção de ingredientes para bebidas proteicas. O movimento acompanha a expansão do mercado, com expectativa de que as vendas de whey protein alcancem 9,5 bilhões de reais no Brasil até 2028, quase o dobro do registrado em 2023.
A diversificação vai além dos lácteos. A aquisição da Emana amplia a presença da empresa no segmento de suplementos, incluindo proteínas, creatina e vitaminas, com forte atuação digital. A estratégia busca acessar categorias ligadas a bem-estar e reduzir a dependência do varejo tradicional.
Apesar do potencial, o consumo ainda está em fase inicial. Apenas 5% dos brasileiros consomem produtos hiperproteicos, concentrados em nichos como o público fitness. A expansão desse mercado depende de fatores como preço, distribuição e mudança de hábitos, indicando que a construção de demanda será tão determinante quanto a capacidade de oferta.
O cenário que se desenha combina três vetores claros: maior produtividade, consolidação da cadeia e mudança no perfil de consumo. A tendência é de uma indústria mais concentrada e orientada a valor, em que a capacidade de transformar leite em produtos diferenciados define a captura de margem.
Nesse ambiente, a estratégia da Piracanjuba sinaliza um reposicionamento alinhado ao novo ciclo do leite. A disputa deixa de ser por escala pura e passa a ser por eficiência na conversão da matéria-prima em valor, com a proteína como eixo central dessa transição.
*Escrito para o eDairyNews, com informações Money Report






