Os lácteos sem vaca produzidos por fermentação de precisão voltaram ao radar de investidores.
Após um período de menor atividade no setor de foodtech, novas rodadas de financiamento indicam que empresas que produzem proteínas lácteas sem origem animal estão entrando em uma nova fase de expansão.
Nos últimos meses, diversas startups voltadas à produção de proteínas lácteas por fermentação captaram recursos para ampliar escala e acelerar o desenvolvimento industrial. Entre elas estão a australiana All G, focada em lactoferrina, a belga Those Vegan Cowboys, que trabalha com caseína, a holandesa Vivici, dedicada a whey e lactoferrina, e a francesa Verley, que produz proteína do soro do leite.
A Verley anunciou recentemente uma rodada de US$ 38 milhões para ampliar a produção de whey. Já a Those Vegan Cowboys está próxima de concluir uma campanha de crowdfunding que pode levar sua rodada a US$ 14,48 milhões. A All G captou cerca de US$ 6,6 milhões e criou uma joint venture com a Armor Protéines, braço de ingredientes da Savencia. A Vivici, por sua vez, lançou uma lactoferrina obtida por fermentação após ter captado US$ 38,4 milhões no ano anterior.
Esse movimento ocorre em um contexto de forte crescimento da demanda por proteínas. Alimentos com alegações de proteína avançam em ritmo superior ao de produtos sem esse atributo, impulsionados por tendências como controle de peso e pela expansão do consumo de proteína para além da nutrição esportiva.
Hoje, o ingrediente aparece cada vez mais em snacks, bebidas, panificação, refeições prontas e foodservice. Nesse cenário, proteínas lácteas como whey protein concentrado, beta-lactoglobulina, caseinatos e concentrados proteicos de leite continuam altamente demandadas para aplicações especializadas e também de grande escala.
Ao mesmo tempo, a oferta enfrenta limitações. Estoques de alguns ingredientes costumam ser reservados com meses de antecedência, criando gargalos de disponibilidade. Embora fornecedores tradicionais estejam ampliando capacidade, investidores enxergam espaço para novas rotas de produção.
É nesse ponto que entram as proteínas lácteas obtidas por fermentação de precisão. O processo consiste em programar microrganismos, como leveduras, para produzir biomoléculas complexas, como proteínas. Depois da fermentação, essas moléculas são extraídas e purificadas para uso em alimentos e nutrição.
O resultado são ingredientes bioidênticos aos produzidos naturalmente pelo leite. No caso da caseína, por exemplo, isso permite fabricar queijo com propriedades funcionais semelhantes às do produto tradicional, incluindo elasticidade e comportamento de fusão.
Apesar do potencial tecnológico, o setor ainda enfrenta obstáculos relacionados a mercado, regulação e percepção do consumidor. Mesmo assim, a combinação de demanda crescente por proteína e limites na oferta atual tem criado um ambiente mais favorável para novos investimentos.
Executivos do setor afirmam que o interesse dos investidores permaneceu forte nos últimos anos, embora parte do capital tenha migrado temporariamente para áreas como inteligência artificial e defesa. Com o retorno desse capital, empresas de fermentação de precisão voltam a acelerar seus projetos.
Outro fator que reforça o interesse é a busca por maior segurança alimentar e estabilidade de cadeia. Ingredientes produzidos por biotecnologia também são vistos como alternativa para enfrentar choques climáticos ou interrupções na produção tradicional.
Além disso, a menor intensidade energética do processo em comparação com a produção agropecuária tradicional tem relevância para empresas de alimentos e bebidas que buscam cumprir metas climáticas e reduzir riscos operacionais.
Nesse contexto, os lácteos sem vaca passam a ser avaliados não apenas como inovação tecnológica, mas como uma possível via complementar de produção de proteínas em um mercado cuja demanda continua em expansão.
*Escrito para o eDairyNews, com informações de Dairy Reporter






