A cereulide é o centro da decisão que levou a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) a proibir, de forma preventiva, a comercialização, a distribuição e o uso de lotes específicos de fórmulas infantis fabricadas pela Nestlé Brasil.
A medida foi anunciada na quarta-feira (7) e envolve seis linhas de produtos destinados à alimentação infantil, sem que haja, até o momento, registro de casos confirmados de intoxicação no país.
Segundo a Anvisa, a ação foi adotada após a identificação do risco potencial de contaminação pela toxina, produzida pela bactéria Bacillus cereus. Trata-se de um microrganismo amplamente distribuído no ambiente, que pode estar presente em diferentes alimentos. A agência ressalta que a decisão tem caráter estritamente preventivo e visa proteger um público considerado mais vulnerável: bebês e crianças pequenas.
Em comunicado oficial, a Nestlé informou que a possível presença da cereulide foi detectada durante análises periódicas de controle de qualidade conduzidas pela própria empresa. A companhia destacou que não há relatos de eventos adversos associados aos lotes afetados e que a suspensão ocorre como parte dos protocolos de segurança adotados globalmente.
A cereulide é descrita na literatura científica como uma toxina altamente resistente. Um artigo publicado pela Elsevier aponta que ela não é inativada por processos comuns de aquecimento ou fervura, o que significa que, uma vez presente no alimento, pode manter sua capacidade de provocar intoxicação mesmo após o preparo. Essa característica diferencia a cereulide de outros agentes microbiológicos normalmente controlados pelo calor.
De acordo com a Anvisa, os sintomas associados à ingestão da toxina costumam surgir entre uma e seis horas após o consumo. Entre os sinais mais comuns estão vômitos persistentes, diarreia e letargia. Esta última se manifesta como sonolência excessiva, lentidão de movimentos e raciocínio, além de redução na capacidade de reação e de expressão emocional.
A pediatra Ana Escobar explica que pais e responsáveis devem estar atentos a mudanças comportamentais após a ingestão de fórmulas infantis. Segundo ela, sinais como apatia, “moleza”, ausência de respostas emocionais — como risadas —, além de vômitos ou diarreia, justificam a busca imediata por uma unidade de pronto atendimento. A médica ressalta, no entanto, que não há indícios de sequelas associadas à cereulide nos casos descritos na literatura.
Ainda segundo a pediatra, o tratamento é sintomático e depende do quadro apresentado, com foco principal na hidratação. Em geral, os sintomas tendem a cessar em até dois dias. Caso a criança tenha consumido uma fórmula pertencente aos lotes recolhidos, mas não apresente qualquer sintoma, não há indicação de atendimento médico preventivo.
O pediatra infectologista Renato Kfouri também minimiza o risco de alarme. Para ele, a ausência de notificações de eventos adversos graves é um dado relevante. Kfouri afirma que recalls desse tipo são práticas comuns na indústria de alimentos e têm caráter preventivo. Na avaliação do especialista, a medida demonstra o funcionamento dos sistemas de controle e o compromisso do fabricante com a segurança do consumidor.
A principal orientação, segundo Kfouri, é verificar cuidadosamente o produto e o número do lote. Caso haja correspondência com os itens suspensos, o consumo deve ser interrompido e a criança observada quanto ao surgimento de sintomas. Apenas diante de manifestações clínicas é que se recomenda procurar atendimento médico.
A Anvisa divulgou a lista completa dos produtos e lotes afetados, que incluem fórmulas das linhas Nestogeno, Nan Supreme Pro, Nanlac Comfor, Nan Science Pro Sensitive e Alfamino, em diferentes apresentações e faixas etárias. A Nestlé reforçou que nenhum outro produto ou lote fora dessa relação foi impactado e que os demais itens de nutrição infantil seguem seguros para consumo.
A empresa orienta que consumidores que possuam produtos dos lotes suspensos não os utilizem e entrem em contato com o serviço de atendimento ao consumidor para devolução e reembolso. O procedimento faz parte do protocolo de recolhimento voluntário adotado pela companhia em coordenação com a autoridade sanitária.
*Escrito para o eDairyNews, com informações de ICL Notícias






