A cadeia do leite em Sidrolândia, no Mato Grosso do Sul, entrou em 2026 sob forte pressão econômica, cenário que levou a Prefeitura a lançar o Sidroleite, nova versão do programa municipal de incentivo à pecuária leiteira.
A iniciativa marca o retorno de políticas públicas diretas ao setor após um ano de interrupção e busca responder à combinação de baixa remuneração ao produtor, custos logísticos elevados e queda de produtividade nos assentamentos rurais.
Atualmente, os produtores recebem entre R$ 1,80 e R$ 2,30 por litro de leite, enquanto o produto chega ao consumidor final por cerca de R$ 6,00 nos supermercados. Essa disparidade tem comprimido as margens e provocado retração da atividade, especialmente entre agricultores familiares, que dependem do leite como principal fonte de renda.
Dados da Secretaria de Desenvolvimento Rural indicam que Sidrolândia produz aproximadamente 12 mil litros de leite por dia. Esse volume é originado em 102 lotes equipados com resfriadores coletivos, que atendem até oito produtores cada. A comercialização ocorre por meio de 12 atravessadores, responsáveis pela coleta três vezes por semana e pelo transporte até laticínios localizados em Campo Grande, Bandeirantes e Dourados. A distância e a intermediação reduzem ainda mais o ganho do produtor na ponta inicial da cadeia.
Na prática, a renda mensal é limitada. Um produtor que entrega 50 litros de leite por dia alcança faturamento bruto aproximado de R$ 3.450 por mês. No Assentamento Alambari, o produtor Altair Alves Ferreira relata que o preço pago caiu para R$ 1,80 por litro. Com produção diária de 60 litros, sua receita mensal gira em torno de R$ 3.240. Anos atrás, Altair produzia cerca de 100 litros por dia, mas reduziu a atividade diante da falta de rentabilidade e passou a complementar a renda com o cultivo de mandioca e a produção de rapadura.
É nesse contexto que a Secretaria Municipal de Agricultura e Abastecimento (Semaa) estruturou o Sidroleite. O programa prevê a implantação ou recuperação de um hectare de pastagem por produtor, criando melhores condições de alimentação do rebanho e favorecendo o aumento da produtividade. A proposta foi desenhada para atender 90 produtores rurais, com prioridade para agricultores familiares e pequenos criadores de gado leiteiro.
Cada produtor contemplado receberá 20 quilos de sementes de capim, 300 quilos de adubo, 50 litros de óleo diesel e o transporte do calcário necessário para a correção do solo. Em contrapartida, o produtor deverá adquirir o calcário e custear a preparação da terra, incluindo a hora-máquina, caso não possua equipamentos próprios. Diferentemente de versões anteriores, totalmente subsidiadas com recursos públicos, o novo formato estabelece corresponsabilidade entre poder público e beneficiários.
Outro ponto central do Sidroleite é o critério de elegibilidade. Apenas produtores com produção diária entre 50 e 100 litros de leite poderão participar. Além disso, ficam impedidos aqueles que já foram atendidos por programas estaduais como Silagem I, Silagem II ou Proleite MS. Para se inscrever, os interessados devem procurar a Semaa com documentação pessoal e inscrição estadual.
Experiências anteriores ajudam a dimensionar o impacto do apoio técnico e estrutural. No Assentamento Santa Terezinha, a produtora Janise Soares da Silva transformou em silagem os quatro hectares de milho cultivados no Sítio Estância Fonte de Água Vida. As 120 toneladas armazenadas garantem alimentação por pelo menos seis meses para as 10 vacas leiteiras da propriedade, permitindo a produção contínua de queijos e doces durante o período de seca.
Entre os produtores assistidos também estão Israel Pacheco, do Assentamento Che Guevara, e Débora Borges, do Assentamento Estrela. Israel, com um rebanho de 30 animais e apenas seis vacas em lactação, alcançou produção diária de 60 litros de leite, o melhor resultado em mais de 14 anos de atividade. Já Débora produz cerca de 105 litros por dia e espera atravessar a entressafra sem dificuldades graças à silagem estocada.
Paralelamente às ações municipais, o Governo do Estado selecionou 30 assentados com produção entre 100 e 300 litros de leite por dia para um programa estadual de incentivo. No entanto, nenhum atingiu o nível máximo de participação previsto, que condicionava benefícios mais robustos ao grau de gestão da atividade. Do total, 13 produtores receberão novilhas e touros, oito terão novilhas prenhas e bezerras, e nove serão beneficiados com bezerras.
Com o Sidroleite, Sidrolândia tenta criar uma base mais sólida para a produção de leite, apostando em estrutura, alimentação do rebanho e foco no produtor familiar como caminhos para recuperar produtividade e renda no campo.
*Escrito para o eDairyNews, com informações de Região News






