A sucessão familiar no campo pode começar antes do que se imagina.
Em vez de discursos, mãos pequenas moldando queijo. E, no meio disso tudo, uma descoberta simples: o futuro também se aprende fazendo.
Foi nesse espírito que a 32ª Expobel, em Francisco Beltrão (PR), ganhou um de seus momentos mais simbólicos com o 1º Prêmio de Queijos Coloniais do Clube da Bezerra. A iniciativa colocou crianças no centro da produção, conectando tradição, família e aprendizado em uma experiência prática que vai além de uma competição.
Promovido pela Secretaria Municipal de Agricultura, em parceria com o Clube da Bezerra e com apoio de instituições como UTFPR, Cresol e Rumo, o projeto reuniu 19 jovens produtores — todos filhos de agricultores e produtores de leite. Cada participante produziu o próprio queijo em casa, utilizando leite da propriedade da família.
O processo não ficou restrito ao resultado final. Durante cerca de 30 dias de maturação, as crianças acompanharam todas as etapas: preparo, formação da massa, prensagem e cura. Fotos e vídeos enviados pelas famílias registraram o percurso, enquanto equipes técnicas visitaram as propriedades para acompanhar de perto a evolução.
A proposta, segundo a organização, foi criar vínculo desde cedo com o campo e com a transformação da matéria-prima — um ponto-chave quando se fala em sucessão familiar no campo. Mais do que ensinar a produzir, a iniciativa expôs as crianças ao valor agregado da atividade, aproximando-as da lógica produtiva e do papel da família nesse processo.
A vencedora foi Júlia Ariati, de 8 anos, da comunidade Nova Secção. Com apoio direto da família, especialmente da avó, ela participou de todas as etapas da produção. “Meu pai tirou o leite da minha vaca e a minha avó ajudou no preparo”, contou, descrevendo o passo a passo com naturalidade.
Pelo primeiro lugar, Júlia recebeu R$ 1.500. Questionada sobre o que faria com o prêmio, respondeu com leveza: “Não faço a mínima ideia”. A resposta, espontânea, resume o tom do evento — menos sobre recompensa imediata e mais sobre experiência, pertencimento e construção de identidade rural.
Cada criança recebeu uma forma própria para produzir o queijo inscrito na competição, reforçando o caráter educativo da ação. Na prática, o prêmio funcionou como uma ponte entre gerações: saberes tradicionais transmitidos no cotidiano da família, agora estruturados em uma atividade que valoriza o aprendizado.
Mais do que um evento pontual, a iniciativa evidencia como estratégias simples podem estimular a permanência no campo. Ao integrar crianças no processo produtivo de forma concreta, a sucessão deixa de ser um tema abstrato e passa a fazer parte da rotina — quase naturalmente.
No fim, o queijo é só o começo.
*Escrito para o eDairyNews, com informações de Diário do Sudoeste






