A tarifa dos EUA, mantida em 15%, está empurrando a exportação de lácteos da Nova Zelândia para um terreno em que depender de um único cliente deixou de ser sinônimo de segurança.
Os Estados Unidos se tornaram o segundo maior destino das exportações do país: geram $ 9,0 bilhões em comércio bilateral e respondem por 12% dos embarques totais. Por isso, o recado para os exportadores é ter alternativas.
Washington elevou a tarifa de 10% para 15%, e isso ampliou a desvantagem média da Nova Zelândia diante de concorrentes com acordos preferenciais, como Austrália, Canadá e Chile. A diferença saltou de 1,1% para mais de 5,0%. O produto neozelandês passou a competir em posição mais frágil.
O pano de fundo agrava o cenário. Nas exportações de bens e serviços, o país somou $ 32,5 bilhões no trimestre encerrado em junho de 2026, mas os termos de troca de bens recuaram 9,0%, porque a inflação das importações superou os preços obtidos nas vendas externas. O sinal é de pressão sustentada sobre as margens dos setores expostos ao comércio.
Quem tem escala responde com portfólio. As cooperativas multinacionais redirecionam sólidos do leite entre destinos, e seus estrategistas afirmam que a opcionalidade real exige flexibilidade industrial para mudar o mix entre mais de 100 mercados, em vez de absorver a tarifa.
Com a China representando cerca de 30% da carteira de pedidos dos grandes processadores, frações proteicas, lotes de leite em pó e gordura anidra de leite podem ser desviados para outros compradores.
No outro extremo estão as empresas de porte médio e as marcas especializadas com exposição concentrada aos EUA, entre 20% e 85% da receita. Vários operadores vêm absorvendo a tarifa internamente, até o ponto em que a margem líquida se aproxima de zero. A mesma tarifa pesa de forma muito diferente conforme o número de portas que a empresa tem para sair.
Essa flexibilidade começa dentro da fábrica. As plantas precisam alternar as torres de secagem entre leite em pó integral, concentrados proteicos ultrafiltrados e bases de nutrição infantil de baixo esporo, sem longas paradas nem ciclos excessivos de limpeza CIP.
Quem investiu em filtração por membranas, ensaque automatizado e armazenagem com temperatura controlada consegue realocar sólidos para compradores verificados no Japão, no Sudeste Asiático ou na União Europeia, desde que cumpra padrões sanitários e fitossanitários, certificação halal e regras de embalagem de cada região.
A conta completa pode demorar a aparecer. Projeções de autoridades monetárias indicam que, no curto prazo, o efeito comercial foi desinflacionário, pela liquidação de estoques, mas que as ineficiências em cadeias fragmentadas devem se transformar em inflação estrutural de custos até 2030.
Com frete mais caro, financiamento elevado e câmbio volátil, depender da margem do consumidor americano virou postura perigosa. As empresas fazem auditorias de receita por região e recorrem a acordos como CPTPP, o tratado com o Reino Unido e o pacto com a União Europeia, nos quais a Nova Zelândia mantém vantagem tarifária sobre rivais.
No fim da cadeia, a conta chega à porteira. A estabilidade dos dividendos das cooperativas e o preço-base do leite pago aos produtores dependem de os processadores conseguirem desviar o peso da tarifa para canais de ingredientes de maior valor.
Os produtores já convivem com investimentos pesados, custos regulatórios crescentes e preços voláteis de fertilizantes e combustíveis, o que deixa pouca folga para absorver a erosão de margem da indústria. Com o comércio internacional se fragmentando rumo a 2027, a flexibilidade comercial segue como condição para proteger o caixa das empresas e os pagamentos aos produtores.
*Produzido pela eDairyNewsBr, com informações publicadas por eDairyNews En






