A possível adesão do Uruguai ao Transpacífico — o Acordo Abrangente e Progressista para a Parceria Transpacífica (CPTPP) — surge como uma das decisões comerciais mais estratégicas para o setor lácteo uruguaio em muitos anos.
Aprovado recentemente pelos países membros, o avanço do processo coloca Montevidéu diante de um mercado que concentra 14% do comércio mundial de lácteos e que importa, anualmente, mais de 13 milhões de toneladas de leite equivalente.
De acordo com projeções citadas por Nicolás Albertoni, ex-subsecretário de Relações Exteriores, o trâmite para o ingresso formal pode levar entre seis meses e um ano. Mesmo antes da conclusão, porém, especialistas dentro e fora do Instituto Nacional de la Leche (Inale) destacam que as vantagens potenciais para o país são claras, concretas e de impacto direto sobre a competitividade dos exportadores uruguaios.
O bloco reúne 11 economias, entre elas Japão, Vietnã, México, Malásia e Canadá — mercados considerados “difíceis”, mas altamente valiosos pela capacidade de consumo, renda per capita e hábitos consolidados de importação. Segundo informes técnicos do Inale, a participação no CPTPP garante ao Uruguai acesso a tarifas reduzidas, eliminação gradual de impostos de importação e entrada automática nos contingentes tarifários (TRQs) já concedidos a outros países membros. É justamente nessas preferências que residem as maiores oportunidades.
Japão: o grande prêmio
O Japão é visto por técnicos do setor como o mercado mais relevante dentro do acordo. O país importa mais de 700 mil toneladas de leite equivalente por ano, com compras que, somente em 2022, ultrapassaram US$ 4,4 bilhões. Hoje, para fornecedores sem acordo, prevalecem tarifas médias de 25% sobre a leite em pó desnatado. Já os membros do CPTPP operam com quotas preferenciais e um cronograma de redução até a desoneração total, o que altera completamente a competitividade relativa.
No segmento de queijos — que representa um terço das importações japonesas — Austrália e Nova Zelândia dominam quase 60% do volume. O peso desses dois países se explica, em parte, pelo acesso antecipado aos contingentes crescentes do CPTPP, que ampliam seus limites de entrada ano após ano. Fora do bloco, os exportadores enfrentam tarifas que variam de 22% a 40%, dependendo da categoria do produto, o que deixa o Uruguai em desvantagem clara até a oficialização de sua entrada.
Vietnã: demanda crescente e tarifas em queda
Outro destino chave é o Vietnã, cuja demanda por lácteos supera US$ 1,2 bilhão anuais e continua em expansão, impulsionada pelo consumo urbano, pela entrada da classe média e por nichos como fórmulas infantis. Para leite em pó integral, o país aplica tarifas de 20% aos exportadores sem acordo. No entanto, dentro do CPTPP, essas tarifas serão eliminadas gradualmente até chegar a zero entre 2026 e 2031, o que favorece quem estiver dentro do bloco.
Salvaguardas e uso de quotas
O acesso preferencial virá acompanhado de mecanismos de salvaguarda em mercados como Japão e Canadá. Nesses casos, quando o volume importado supera determinados limites, as concessões podem ser suspensas temporariamente. Informes técnicos apontam que tais gatilhos já foram acionados por outros países membros, o que demonstra não apenas o rigor do sistema, mas também o forte nível de demanda que move esses mercados.
Mais que commodities: chance para diversificação
Além de leite em pó e queijos, o CPTPP abre portas para produtos de maior valor agregado. O Inale cita, entre as oportunidades emergentes, sueros, fórmulas infantis, queijos especiais e derivados premium adaptados ao gosto asiático. São categorias em que o consumidor paga mais pela diferenciação e nas quais o Uruguai pode encontrar nichos estratégicos para crescer.
Um passo estratégico
O avanço no Transpacífico significa, para o Uruguai, mais que um ajuste tarifário: trata-se de entrar em uma liga onde a competição é dura, mas as regras são claras e previsíveis. Com acesso preferencial, o país poderá disputar mercados que historicamente estiveram nas mãos de gigantes tradicionais do setor. Para a cadeia láctea uruguaia, esse movimento representa a possibilidade de acelerar exportações, ganhar escala e reposicionar o país como fornecedor relevante em economias de alto valor.
*Escrito para o eDairyNews, com informações de Tardáguila






