Corporação suíça Nestlé rejeitou proposta de acionistas para redução de itens "não saudáveis"
Documento vazado pelo Financial Times mostrou que boa parte dos produtos da Nestlé jamais poderiam ser considerados saudáveis - AFP
Documento vazado pelo Financial Times mostrou que boa parte dos produtos da Nestlé jamais poderiam ser considerados saudáveis - AFP
A Nestlé deu um chega pra lá nos defensores de alimentos saudáveis este ano. E, dessa vez, não eram ativistas: cinco fundos de investidores que, juntos, gerenciam mais de 1 trilhão de dólares em ativos, incluindo alguns da própria Nestlé.

Liderados pela ShareAction, ONG de investimento responsável, eles pediram à segunda maior produtora de alimentos do mundo que alterasse suas receitas para conter mais fibras e menos açúcar, sódio e gordura. Em abril, levaram a proposta à reunião anual dos acionistas e perderam feio: 88% disseram não às mudanças.

Apesar da derrota, a ONG não desanimou – e deve seguir nas tratativas com a empresa. “Considerando que é a primeira proposta de acionistas desse tipo a uma multinacional de comida e bebida que progrediu para uma votação, ter 11% de apoio à resolução sinaliza uma preocupação crescente dos investidores nesse quesito”, afirma a nutricionista Holly Gabriel, líder de campanha para saúde do consumidor da ShareAction.

Em 2021, um documento vazado pelo Financial Times mostrou que boa parte dos produtos da Nestlé jamais poderiam ser considerados saudáveis – ou seja, deveriam deixar de ser fabricados. A corporação tentou fazer do limão uma limonada ao passar a divulgar os levantamentos feitos internamente. O portfólio da segunda maior empresa de alimentos do mundo (atrás da brasileira JBS) não é aprovado nem mesmo nos critérios definidos por ela: 54% das vendas vêm de produtos que ficam no rodapé da escala de saudabilidade.

Os cinco fundos que pediram mudanças no portfólio da Nestlé

 

 

 

 

A ShareAction alega que os dados oficiais são camuflados, já que a empresa coloca seus produtos com cafeína no portfólio de “produtos saudáveis”. A proposta pedia um compromisso em inverter esse quadro.

A luta pela redução do consumo de açúcar é óbvia, ainda que a indústria tente ignorá-la (ou amenizar sua parcela de responsabilidade): a obesidade mundial dobrou nos últimos 30 anos. Os custos das doenças crônicas, como diabetes tipo 2 e enfermidades cardiovasculares, devem chegar a 4,3 trilhões de dólares por ano até 2035.

Quando se trata da indústria de ultraprocessados em geral, as consequências à saúde se expandem ainda mais. Uma pesquisa publicada em janeiro mostra que, quanto maior a exposição a estes alimentos, maiores os riscos de desenvolvimento de câncer, transtornos mentais (como ansiedade e insônia), doenças cardiovasculares e obesidade. O estudo revisou 45 pesquisas distintas, que totalizaram mais de 9 milhões de participantes, e encontrou evidências suficientes para ligar ultraprocessados a 32 doenças ou desfechos negativos.

A indústria tem se esquivado de promessas mais agressivas. A Nestlé, por exemplo, se comprometeu a aumentar em 50% as vendas de produtos saudáveis até 2030 – ainda que, mais uma vez, inclua produtos cafeinados nesse nicho. Mas, quando se trata de mudanças efetivas, como propôs a ShareAction, eles se recusam.

Emmanuel Faber, ex-CEO da Danone, tirou o foco da empresa dos lucros e o direcionou à proteção do meio ambiente, de empregados e fornecedores. No comando, ele reduziu a emissão de gases de efeito estufa e o uso de plástico da empresa, mas os resultados financeiros não alcançaram o mesmo sucesso. Perdeu o emprego no início de 2021.

À época, Faber disse que a queda se deveu a uma disputa de poder e que os adversários se aproveitaram da pressão externa por sustentabilidade e saúde para impor sua demissão. “O fato é que esses ativistas não tinham um plano e, sem apoio dentro do conselho de administração, não teriam chegado a lugar algum. Permitiu-se que os investidores ativistas entrassem no jogo por razões relacionadas a uma situação em que o conselho não estava funcionando apropriadamente.”

Derek Yach, ex-diretor da Organização Mundial da Saúde, assumiu a vice-presidência da Pepsico, em 2007, com a promessa de revolucionar a empresa, uma das líderes na produção de salgadinhos e biscoitos. Foi uma surpresa no mundo da saúde: Yach havia sido um líder importante na elaboração da Convenção-Quadro para o Controle do Tabaco, um tratado global que buscou colocar um freio nas corporações de cigarros.

A empresa cortou, no longo prazo, as quantidades de sódio, açúcar e gordura dos produtos, e investiu no marketing para estimular o consumo de comidas e bebidas saudáveis. Os acionistas se empolgaram, e depois voltaram atrás: era caro demais. Yach durou pouco mais de cinco anos no cargo. E a Pepsico segue promovendo salgadinhos e chocolates.

Pequenas mentiras, grandes negócios

O livre mercado impera nas justificativas para manter produtos nocivos à saúde – ao mesmo tempo em que as empresas se aproveitam do marketing positivo das vendas de alimentos mais saudáveis.

“A indústria promete, estabelece metas que elas mesmas fiscalizam, depois usam para publicidade: refrigerante zero açúcar! Eles criam soluções pouco eficientes para a saúde. Trocaram o açúcar por adoçante, que também faz mal; a gordura saturada por gordura trans – não preciso nem dizer os malefícios disso”, contesta Maria Laura Louzada, professora do Departamento de Nutrição da Faculdade de Saúde Pública da USP.

Além de trocar um produto nocivo por outro, a indústria se vangloria de investir em conteúdos informativos sobre alimentação saudável – e de alertas aos riscos do excesso de açúcar, gordura, etc. Enquanto isso, na verdade, esticam suas vendas mais lucrativas até onde podem, com produtos com poucos ou zero nutrientes. Literalmente até onde podem: principalmente nos mercados emergentes e mal regulados.

Em países da África, Ásia, e América Latina, por exemplo, a Nestlé adiciona mais açúcar e mel no leite e em cereais infantis. Na Europa esses mesmos produtos são vendidos com outra fórmula, sem adicionar açúcar. A descoberta é da Public Eye, uma organização investigativa da Suíça.

Em entrevista ao New York Times, Sean Westcott, executivo da Nestlé, alegou que a empresa ajuda no combate à fome e que “a obesidade é uma consequência inesperada”. A ciência, no entanto, aponta outro dado: a ascensão do consumo de ultraprocessados cria nações simultaneamente obesas e mal nutridas.

“Esse é o argumento mais desonesto deles. Não há nenhuma evidência de que os ultraprocessados ajudaram no combate mundial à fome”, contrapõe Louzada. “No Brasil, as medidas bem-sucedidas saíram de medidas do governo para oferecer comida de verdade, com variedade – carne, verdura e arroz. E desonesto também porque partem do pressuposto de que pobre deve comer qualquer coisa só para encher a barriga.”

As “consequências inesperadas” mencionadas por Westcott se sustentam também no argumento do livre mercado: o direito do consumidor sobre sua própria alimentação. Afinal, se até eles alertam sobre os riscos, a população deveria equilibrar suas escolhas e dieta.

“Eles controlam o sistema alimentar, econômico e político. Trabalham pesado no marketing. Isso tudo faz com que nossas escolhas sejam limitadas”, argumenta Louzada. “O livre mercado pressupõe que as pessoas são muito bem informadas e que não há assimetria de poder entre consumidores e empresas. E isso absolutamente não é verdade.” Até a ciência enviesada faz parte do jogo.

Um estudo antigo mostrou que a indústria atrasou, por anos, a discussão sobre a relação entre obesidade e consumo de açúcar. Eles encomendaram pesquisas para provar o contrário. Como mostramos anos atrás, a Nestlé pagou pesquisadores que atacaram Carlos Monteiro, professor da USP, e responsável pela criação do termo “ultraprocessados”. “Existe um abuso de poder, porque podem dominar o mercado, eliminar a concorrência e ainda manipular as informações. É uma falsa ideia de liberdade”, diz Louzada.

Saída pelo governo

“Empresas grandes, como a JBS e a Nestlé, colocam em seus relatórios que as demandas por alimentação saudável e as propostas regulatórias são uma ameaça aos negócios. Eles enxergam isso como uma ameaça”, argumenta Marcello Baird, coordenador de advocacy da ACT Promoção da Saúde, ONG que defende políticas de saúde pública.

Ou seja, em outras palavras: não dá para deixar a raposa tomar conta do galinheiro. A Nestlé deixou claro que adotar medidas mais drásticas e saudáveis atrapalha os lucros – a Pepsico também. As decisões voltadas para alimentação e saúde pública só funcionam se partirem dos governos.

E no Brasil houve alguma evolução nos últimos anos. O Guia Alimentar para a População Brasileira, lançado em 2014, foi chamado por Marion Nestle, professora emérita da Universidade de Nova York, e estrela na luta por alimentação saudável, como “o melhor do mundo”.

Em 2020, a exemplo da política chilena, a Anvisa começou a adotar avisos na parte frontal das embalagens. Entre muitas idas e vindas, agora os rótulos precisam vir com lupas que avisam sobre o excesso de sal, açúcar e gorduras saturadas.

O governo Lula, por decreto, em maio, aprovou mudanças nos itens da cesta básica, com a retirada dos ultraprocessados. O texto ainda precisa passar pela aprovação do Congresso Nacional. “É a primeira cesta básica no Brasil que se preocupa não apenas com o consumo dos mais pobres, mas também com a questão da alimentação saudável. É uma medida muito importante, mas vamos ver como volta do Congresso, porque eles vão querer mudar”, alerta Baird.

Em contrapartida, entre as recentes derrotas, o governo Lula deixou os ultraprocessados de fora do imposto seletivo, criado pela Reforma Tributária. Entraram apenas os refrigerantes entre os produtos e serviços considerados prejudiciais à saúde, como cigarros e bebidas alcóolicas, que terão de pagar um imposto diferente, com o intuito de reduzir o consumo.

Baird e a ACT queriam os ultraprocessados como um todo nessa lista. “Somos um país de referência no debate sobre alimentação, cunhamos o termo ultraprocessados. Então a gente esperava mais, ficou tímido. Ainda mais considerando que temos 57 mil mortes prematuras no Brasil, por ano, por conta do consumo de ultraprocessados. Vamos dialogar com o Congresso para modificar o texto e incluir essa categoria”, diz Baird.

 

 

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