O Wegovy entrou em uma nova fase de expansão global, reforçando o impacto estrutural dos medicamentos à base de GLP-1 sobre o consumo de alimentos.
A Novo Nordisk voltou a avaliar aquisições e parcerias estratégicas como parte de um esforço mais amplo para sustentar o crescimento de seu portfólio contra a obesidade, em um mercado cada vez mais competitivo e com efeitos que extrapolam o setor farmacêutico.
Durante a Conferência de Saúde do JPMorgan, em San Francisco, o diretor-presidente da Novo Nordisk, Mike Doustdar, afirmou que a empresa está aberta a aquisições de diferentes portes, desde que complementem seus ativos atuais. Segundo ele, a companhia pode realizar operações grandes ou pequenas, mas apenas se forem claramente superiores ao que já existe em seu pipeline interno.
O reposicionamento ocorre após a Novo Nordisk ter abandonado, no fim de 2025, a disputa pela biotech americana Metsera, focada em medicamentos contra a obesidade. A empresa recuou depois que a Pfizer apresentou uma oferta que pode chegar a US$ 10 bilhões, evidenciando o aumento da concorrência por ativos estratégicos ligados ao tratamento da obesidade.
Apesar de ter sido pioneira no desenvolvimento de medicamentos contra a obesidade, a Novo Nordisk enfrenta desafios para manter sua liderança. Em 2025, a empresa perdeu parte da confiança dos investidores ao ver a Eli Lilly avançar com alternativas terapêuticas e ao apresentar um pipeline considerado aquém das expectativas do mercado.
Analistas observam, no entanto, que a companhia mantém uma posição financeira sólida. Segundo avaliação da Bloomberg Intelligence, a Novo Nordisk dispõe de balanço robusto e poder de fogo suficiente para executar fusões e aquisições, caso surjam oportunidades alinhadas à sua estratégia. Ainda assim, ativos amplos como a Metsera são raros, o que limita opções de grande escala.
Nesse cenário, movimentos de menor porte e acordos de licenciamento tendem a ganhar relevância. Aquisições muito grandes poderiam gerar sobreposição com o portfólio atual da empresa e exigir desinvestimentos, tornando operações complementares uma alternativa mais provável no curto prazo.
Um dos principais vetores dessa estratégia é a versão oral do Wegovy, que começou a ser comercializada nos Estados Unidos neste mês. Doustdar afirmou que a demanda inicial tem sido positiva, embora ainda seja cedo para avaliar o desempenho em larga escala. O lançamento colocou a Novo Nordisk temporariamente à frente da Eli Lilly, que planeja iniciar a venda de um produto concorrente no segundo trimestre.
O otimismo em torno do Wegovy oral contribuiu para a valorização das ações da Novo Nordisk, que acumulam alta de 18% no ano até meados de janeiro. Analistas acompanham de perto a capacidade da empresa de transformar essa vantagem inicial em ganho estrutural, em um mercado que se torna rapidamente mais competitivo.
Doustdar levou toda a equipe executiva à conferência do JPMorgan, sinalizando uma postura mais ativa na busca por parceiros externos. Segundo ele, a presença ampliada reflete o entendimento de que nem toda inovação relevante nasce internamente e que é necessário avaliar oportunidades fora da empresa com pragmatismo.
Além da concorrência direta, a Novo Nordisk enfrenta outros desafios. A empresa tenta conter a disseminação de versões manipuladas mais baratas de medicamentos GLP-1, utilizadas por cerca de 1,5 milhão de pacientes. Também lida com o impacto imediato das reduções de preços negociadas com o governo dos Estados Unidos.
A partir de 2026, a pressão tende a aumentar com a entrada de genéricos licenciados da semaglutida, princípio ativo do Ozempic e do Wegovy. No Canadá, a barreira regulatória já caiu, e as patentes devem começar a expirar na China, no Brasil e na Índia a partir de março, ampliando o acesso e a base de usuários.
Por que o avanço do Wegovy importa para a indústria de alimentos e lácteos
A expansão do Wegovy e de outros medicamentos GLP-1 não representa apenas um fenômeno farmacêutico, mas uma mudança estrutural no padrão de consumo alimentar. Ao reduzir apetite, frequência e volume das refeições, esses tratamentos deslocam a demanda para alimentos mais densos em proteína, com maior efeito de saciedade e valor nutricional por porção.
Para a indústria láctea, o impacto é ambíguo, mas estratégico. Categorias baseadas em volume e consumo impulsivo tendem a perder espaço, enquanto produtos ricos em proteína, com perfil funcional e posicionamento nutricional claro, ganham centralidade. O efeito não é conjuntural: a entrada de versões orais, genéricos e preços mais baixos amplia a população usuária e prolonga o tempo médio de tratamento.
Nesse contexto, o movimento da Novo Nordisk sinaliza que o “efeito GLP-1” está entrando em fase de consolidação e escala. Para o setor de alimentos, compreender essa dinâmica deixa de ser opcional e passa a ser parte central do planejamento de portfólio, inovação e comunicação científica.
*Escrito para o eDairyNews, com informações de InvestNews






