O whey deixa de ser tratado como resíduo e passa a ocupar um papel estratégico na indústria láctea.
A adoção de tecnologias de filtração por membranas está convertendo esse subproduto em ingredientes de alto desempenho, alterando a lógica de aproveitamento e geração de valor dentro das plantas.
Historicamente associado à produção de queijo, o whey muitas vezes era descartado, vendido a baixo preço ou direcionado à alimentação animal. Esse padrão ainda existe, mas começa a perder espaço à medida que processadores investem em tecnologia para capturar valor. O ponto de inflexão está na capacidade de separar e redirecionar seus componentes com precisão.
A filtração por membranas permite fracionar o whey em diferentes correntes, como proteínas, permeados e frações minerais. Ao combinar técnicas como microfiltração, ultrafiltração e nanofiltração, a indústria consegue segmentar esses componentes conforme tamanho e funcionalidade. O resultado é a criação de múltiplos ingredientes com aplicações específicas, em vez de um único produto principal acompanhado de um subproduto de baixo valor.
Esse mecanismo altera diretamente a estrutura de receita. Proteínas de whey nativas podem ser direcionadas para nutrição esportiva e médica. Permeados encontram uso em panificação, confeitaria e bebidas. Já as frações minerais têm aplicação em nutrição infantil. Cada fluxo passa a ter mercado próprio, ampliando o alcance comercial e reduzindo dependência de commodities tradicionais.
Outro vetor relevante é a produção de lácteos com teor reduzido de lactose. A filtração permite remover fisicamente parte da lactose, diminuindo a necessidade de processos enzimáticos. Na prática, isso significa ajustes na formulação já na etapa de separação, com aumento da densidade proteica e redução do teor de lactose no produto final. O impacto é operacional e também de posicionamento, ao viabilizar novas categorias com apelo funcional.
Do ponto de vista de eficiência, o sistema também contribui para melhor aproveitamento de recursos. Tecnologias como osmose reversa permitem recuperar sólidos e gerar água limpa para reutilização na planta. Esse ciclo reduz perdas e reforça metas de sustentabilidade, ao mesmo tempo em que melhora o controle de custos.
A mudança no tratamento do whey responde a uma pressão dupla. De um lado, a necessidade de diversificar portfólio e acessar mercados de maior valor agregado. De outro, a busca por resiliência frente a oscilações de preços e barreiras comerciais em produtos tradicionais. Ao transformar um passivo operacional em ativo estratégico, a indústria láctea reposiciona o whey dentro da cadeia.
O movimento não é apenas tecnológico. Trata-se de uma reconfiguração do modelo de negócio, em que eficiência industrial, inovação em ingredientes e aproveitamento integral da matéria-prima passam a operar de forma integrada.
*Escrito para o eDairyNews, com informações de Dairy Reporter






