O leite integral voltou ao centro do debate público nos Estados Unidos após a divulgação de uma imagem inusitada do ex-presidente Donald Trump usando um bigode de leite, em referência direta à clássica campanha “Got Milk?”.
A fotografia foi compartilhada nesta semana pela administração Trump como parte de uma estratégia visual associada às novas diretrizes alimentares do país, reunidas em uma proposta chamada The New Pyramid.
Segundo a comunicação oficial, a nova pirâmide alimentar busca reposicionar alimentos considerados “de verdade” — como carnes, laticínios, frutas e vegetais — no topo das recomendações nutricionais. Dentro desse reposicionamento, o leite integral aparece novamente como alimento recomendado, sinalizando uma ruptura com anos de incentivo explícito a alternativas não lácteas e versões com baixo teor de gordura.
A escolha da imagem não foi casual. O bigode de leite remete deliberadamente à campanha publicitária dos anos 1990 que marcou época ao associar o consumo de leite a celebridades e figuras públicas. Na leitura da administração, o gesto visual reforça a ideia de retorno a orientações consideradas mais tradicionais, em contraponto ao avanço de bebidas vegetais como as feitas à base de aveia ou amêndoas.
A reação pública foi imediata. Nas redes sociais, a fotografia circulou rapidamente, acompanhada de comentários que oscilaram entre humor, estranhamento e crítica. Alguns usuários ironizaram a estética da imagem, comparando o bigode a referências históricas ou memes contemporâneos. Outros questionaram o próprio simbolismo da iniciativa. “O leite integral saiu de cena a ponto de precisar de um retorno assim?”, escreveu uma internauta, em tom provocativo.
Houve também quem demonstrasse desconforto com a exposição visual. Parte do público afirmou preferir que figuras políticas não fossem retratadas em situações tão íntimas, como o ato de comer ou beber, ainda que de forma simbólica. Ainda assim, a imagem cumpriu seu objetivo principal: recolocar o tema da nutrição e dos laticínios no centro da conversa pública.
O contexto em que a nova pirâmide alimentar foi apresentada ajuda a explicar a escolha. Nos últimos anos, o consumo de leite de vaca nos Estados Unidos apresentou retração, acompanhando a ascensão das bebidas vegetais e de discursos que associam gordura saturada a riscos à saúde. A atual administração, no entanto, sustenta que parte dessas recomendações foi simplificada em excesso e que alimentos integrais foram injustamente marginalizados.
Esse reposicionamento dialoga com a proposta legislativa conhecida como Whole Milk for Healthy Kids Act, citada por representantes do governo como exemplo da tentativa de rever diretrizes adotadas em programas públicos de alimentação. A iniciativa defende a reintrodução do leite integral em ambientes como escolas, argumentando que versões integrais oferecem maior saciedade e perfil nutricional mais completo quando consumidas com moderação.
Nos comentários online, o debate rapidamente ultrapassou a imagem em si. Muitos usuários destacaram que o leite integral jamais deixou de ser consumido por quem aprecia seu sabor e textura. “Nunca saiu — quem gosta, continua tomando”, resumiu um comentário amplamente compartilhado. Outros aproveitaram o momento para discutir a diferença entre recomendações oficiais e escolhas individuais, ressaltando que hábitos alimentares raramente seguem uma única diretriz.
Especialistas em nutrição observam que a discussão reflete uma tensão mais ampla no campo da alimentação. De um lado, cresce a demanda por produtos minimamente processados; de outro, permanece o receio em torno de componentes tradicionais como gordura e açúcar. Nesse cenário, o retorno do leite integral às recomendações oficiais pode ser interpretado menos como uma ruptura abrupta e mais como um ajuste de discurso.
A nova pirâmide alimentar, ainda em fase de consolidação, indica uma tentativa de simplificar a mensagem nutricional para o público geral. Ao privilegiar alimentos reconhecíveis e reduzir o foco em substitutos ultraprocessados, a administração sinaliza uma mudança de ênfase que vai além do leite. A imagem de Trump com bigode branco, embora controversa, funciona como síntese visual dessa estratégia.
Independentemente das opiniões, o episódio demonstra como símbolos continuam sendo ferramentas poderosas na comunicação de políticas públicas. Ao recorrer a uma referência cultural amplamente reconhecida, a administração conseguiu transformar uma diretriz técnica em um assunto amplamente debatido, recolocando o leite integral — e o papel dos laticínios — no centro da agenda alimentar dos Estados Unidos.
*Escrito para o eDairyNews, com informações de Diário do Povo






