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24 jan 2026
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O recall de fórmula infantil da Nestlé reacende alertas sobre QC, ARA oil e responsabilidade do fabricante 🧪
Caso Nestlé mostra como um ingrediente “baixo risco” pode redefinir padrões de controle no setor. Recall
Caso Nestlé mostra como um ingrediente “baixo risco” pode redefinir padrões de controle no setor 🍼

O recall de fórmula infantil anunciado pela Nestlé, com retirada de produtos em quase 60 países, voltou a colocar sob escrutínio as fragilidades das cadeias globais de fornecimento, os critérios de controle de qualidade de ingredientes e a responsabilidade final dos fabricantes em nutrição especializada.

A empresa informou que os lotes afetados — de marcas como SMA, Alfamino e Beba — foram recolhidos após a detecção de cereulida, uma toxina associada a náuseas e vômitos, em um ingrediente específico: o óleo ARA (ácido araquidônico) utilizado nas formulações. Segundo a Nestlé, todos os recalls já foram anunciados e não há registros de doenças relacionadas ao caso até o momento.

Apesar disso, a condução do processo gerou questionamentos públicos. A ONG Foodwatch International criticou a empresa por, em sua avaliação, não ter informado os consumidores com antecedência suficiente durante as fases iniciais do recall. Em resposta, o CEO da Nestlé, Philipp Navratil, afirmou que a companhia seguiu os protocolos regulatórios ao comunicar primeiro as autoridades sanitárias de cada país e anunciar os recalls de forma local e sequencial, conforme orientação oficial.

Na avaliação de um especialista do setor, que falou sob condição de anonimato para preservar relações comerciais, o episódio traz lições relevantes para fabricantes e fornecedores de ingredientes, mas não indica um risco iminente de desabastecimento global.

Segundo a fonte, a cadeia de fórmulas infantis é fortemente dependente do comércio internacional, especialmente para produtos de nicho e nutrição especializada. “Não temos fábricas em todos os países. Um problema em um único site pode impactar diversos mercados”, explicou. Ainda assim, o impacto em volume tende a ser limitado quando se trata de categorias amplamente disponíveis. A Nestlé declarou que os lotes recolhidos representaram menos de 0,5% das vendas anuais do grupo.

Comparações com a crise de abastecimento de fórmulas infantis nos EUA em 2022 surgiram naturalmente. Naquele episódio, restrições pandêmicas somadas ao fechamento de uma planta da Abbott Nutrition resultaram em escassez prolongada. Para o especialista, no entanto, os contextos são distintos. “O mercado americano é singular por conta do programa WIC, que cria forte dependência de poucos fornecedores. Aqui estamos falando de um evento restrito a uma empresa, sem os mesmos mecanismos de concentração”, afirmou.

Quando se trata da resolução de eventos de contaminação, os prazos variam amplamente. Identificar a origem do problema, avaliar a extensão do impacto e definir medidas corretivas depende do tipo de ingrediente e do processo envolvido. “Alguns casos são simples; outros exigem investigações longas, porque há muitas variáveis”, explicou a fonte.

O episódio também trouxe à tona o funcionamento dos sistemas de HACCP (Análise de Perigos e Pontos Críticos de Controle). Ingredientes são classificados por nível de risco, o que define a frequência e a profundidade dos testes. No caso da Nestlé, o óleo ARA era considerado ingrediente de baixo risco, sujeito a controles rotineiros menos intensivos do que matérias-primas como leite cru. A contaminação foi detectada justamente em uma dessas verificações de rotina.

Para o especialista, a resposta natural do setor será revisar classificações de risco. “Após um incidente, o ingrediente passa a ser testado com mais rigor. Se nada ocorre por anos, o risco pode ser rebaixado novamente. É assim que o sistema evolui”, afirmou.

A substituição do óleo ARA, por sua vez, não é trivial. Em fórmulas infantis, cada componente atende a especificações nutricionais, funcionais e regulatórias extremamente precisas. “Não é possível trocar por qualquer alternativa. É necessário encontrar um ARA com especificações idênticas, desde segurança alimentar até desempenho na formulação”, explicou a fonte.

Quanto às responsabilidades, o consenso regulatório — especialmente na União Europeia — é claro: embora todos os elos da cadeia tenham deveres de controle, o fabricante que coloca o produto no mercado é o responsável final perante autoridades e consumidores. “É por isso que o endereço do fabricante está sempre no rótulo”, resumiu o especialista.

No balanço geral, o recall da Nestlé não aponta para uma crise sistêmica imediata, mas reforça a necessidade de mitigação de riscos, diversificação de fornecedores e transparência. Para um setor altamente regulado e sensível como o de nutrição infantil, o episódio funciona como alerta: até ingredientes considerados de baixo risco podem redefinir padrões de controle no futuro.

*Escrito para o eDairyNews, com informações de Dairy Reporter

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