O leite de jumenta pode ultrapassar R$ 300 por litro no Brasil.
À primeira vista, parece improvável que um produto tão raro desperte tanto interesse. Mas por trás desse preço está uma combinação poderosa: valor nutricional elevado, aplicações científicas e um mercado cada vez mais atento a alimentos especializados.
Conhecido em alguns círculos como “ouro branco”, o leite de jumenta começa a ganhar espaço como alternativa de alto valor agregado dentro do agronegócio brasileiro. Ainda pouco conhecido pelo grande público, ele reúne características que despertam interesse em diferentes áreas — da nutrição infantil à indústria farmacêutica e cosmética.
Um dos fatores que explicam essa atenção é sua composição. O leite de jumenta possui baixa concentração de caseína, proteína frequentemente associada a alergias ao leite de vaca. Por isso, ele é estudado como alternativa potencial para crianças com alergia à proteína do leite bovino (APLV). Além disso, apresenta menor teor de gordura e alta digestibilidade.
Outro ponto que chama a atenção de pesquisadores é a semelhança de sua composição com o leite materno humano. Essa característica tem estimulado estudos voltados à nutrição neonatal, inspirados em experiências já observadas em países europeus.
Do ponto de vista nutricional, o leite asinino também se destaca pela presença de vitaminas A, B1, B2, C e E, além de minerais e compostos bioativos. Entre eles está a lisozima, enzima com ação antimicrobiana natural presente também em secreções humanas, como as lágrimas. Essa substância atua destruindo a parede celular de bactérias, funcionando como mecanismo natural de defesa do organismo.
Em um cenário global marcado pela crescente resistência antimicrobiana, o interesse por substâncias naturais com atividade antibacteriana tem aumentado. Isso amplia o potencial de uso do leite de jumenta em aplicações farmacêuticas e biotecnológicas.
Apesar das qualidades, a produção limitada explica o preço elevado. Enquanto vacas leiteiras podem produzir dezenas de litros por dia, uma jumenta produz em média entre 0,2 e 0,3 litro diariamente. Essa baixa escala produtiva torna o produto naturalmente raro.
Na Europa, o litro pode variar entre 30 e 50 euros. No Brasil, valores em torno de R$ 125 por litro já são registrados, com vendas que podem ultrapassar R$ 300 em nichos específicos. Em alguns mercados, o produto também é comercializado na forma liofilizada, o que aumenta sua durabilidade e valor agregado.
Além da alimentação especializada, o leite asinino também desperta interesse da indústria cosmética, especialmente para sabonetes e cremes voltados à hidratação e regeneração da pele.
Pesquisas no Brasil avançam ainda na área de biotecnologia reprodutiva. Estudos conduzidos em Pernambuco investigam o uso do leite de jumenta na formulação de diluentes de sêmen equino livres de antibióticos, aproveitando seus compostos antimicrobianos naturais.
O país possui um dos maiores rebanhos de asininos do mundo, com forte presença no Nordeste. Essa base, combinada com pesquisa científica e organização produtiva, pode abrir caminho para uma nova cadeia de valor.
Nesse cenário, o leite de jumenta não pretende competir com o leite bovino em volume. Seu espaço está em nichos especializados — alimentos hipoalergênicos, produtos naturais e cosméticos premium — onde raridade e ciência caminham juntas para transformar um animal historicamente marginalizado em ativo estratégico do agro brasileiro.
*Escrito para o eDairyNews, com informações de CompreRural






