O preço do leite começa a mostrar sinais de recuperação no início de 2026, impulsionado principalmente pela redução da oferta típica da entressafra.
Ainda assim, a melhora ocorre em um contexto de margens apertadas e custos elevados, o que mantém a pressão sobre produtores e indústrias na cadeia láctea.
No mercado interno, a menor captação de leite abriu espaço para um ajuste nos valores pagos ao produtor. Em Santa Catarina, o Conseleite projetou pagamento de R$ 2,03 por litro para o leite entregue em janeiro e pago em fevereiro. O movimento acompanha um aumento no poder de pagamento das indústrias observado também nos Conseleites do Paraná e do Rio Grande do Sul.
Segundo o presidente do Sindileite-SC e do Conseleite-SC, Selvino Giesel, a redução no volume captado alterou o ambiente de preços. A entressafra diminui a oferta de leite no campo e tende a sustentar os valores pagos ao produtor. Em Santa Catarina, a capacidade de pagamento da indústria aumentou 3,7% em fevereiro, o equivalente a cerca de R$ 0,08 por litro.
Mesmo com essa reação, o desempenho dos produtos no mercado ainda é desigual. Alguns itens continuam operando com resultado negativo, caso do leite UHT. Já os queijos registraram melhora nos preços, o que contribui para ampliar a margem das indústrias e permitir um pagamento ligeiramente maior ao produtor.
Ao mesmo tempo, o setor continua enfrentando dificuldades estruturais ligadas à dinâmica da produção. Diferentemente de outras atividades agropecuárias, a produção de leite não pode ser interrompida. A ordenha ocorre diariamente e o produto tem prazo de validade curto, o que exige industrialização e comercialização rápidas.
No campo, o custo de produção segue sendo um fator crítico. A alimentação representa cerca de 60% das despesas da atividade. Apesar de um desempenho favorável na produção de pasto e silagem e da estabilidade nos preços dos grãos, outros itens continuam pressionando o orçamento das propriedades, como energia elétrica, mão de obra, fertilizantes, produtos de higiene e manutenção de equipamentos.
A remuneração recebida pelos produtores varia de acordo com qualidade e volume fornecido. Há casos de pagamento entre R$ 1,70 e R$ 2,30 por litro. O custo de produção, por sua vez, está estimado entre R$ 2,00 e R$ 2,10 por litro, dependendo da propriedade. Na prática, isso significa que parte dos produtores ainda opera no limite da rentabilidade ou com perdas.
Os números de referência do Conseleite-SC ilustram essa realidade. Em janeiro, o maior valor de referência foi de R$ 2,5332 por litro, enquanto o valor médio ficou em R$ 2,0595 e o menor em R$ 1,9069. Para fevereiro, os valores projetados indicam R$ 2,6281 no teto, R$ 2,1367 como referência e R$ 1,9784 no menor patamar.
No campo, alguns produtores já adotam ajustes para enfrentar esse cenário. Em Xaxim, o produtor Andersson Vidi reduziu o tamanho do rebanho, mantendo 80 vacas em lactação com média de 33 litros por animal ao dia. O preço recebido gira em torno de R$ 2,05 por litro. Segundo ele, muitos produtores têm abandonado a atividade devido à dificuldade de cobrir os custos.
Além da pressão econômica, Vidi também aponta preocupação com as importações de lácteos, que chegam ao mercado com preços considerados desvantajosos para a produção local.
Em Concórdia, o produtor Tiago Bertoldo optou por ajustar a dieta do rebanho para reduzir despesas. Ele mantém 94 vacas em lactação, com produção diária entre 3.550 e 3.600 litros. Os valores recebidos variam entre R$ 2,08 e R$ 2,15 por litro.
Apesar da melhora recente nos preços, Bertoldo avalia que a recuperação ainda é lenta e insuficiente para compensar as perdas acumuladas nos últimos meses. Segundo ele, ainda existem produtores recebendo entre R$ 1,50 e R$ 1,70 por litro, o que evidencia a desigualdade nas condições de remuneração dentro da cadeia.
*Escrito para o eDairyNews, com informações de Diário do Iguaçu






