Leite materno nos olhos pode soar estranho à primeira vista. Mas a ideia, usada há milênios, está voltando ao radar científico. E talvez não seja tão absurda quanto parece.
Um estudo recente reacendeu o interesse por uma prática descrita no Papiro de Ebers, um dos mais importantes manuscritos médicos do Antigo Egito, datado de cerca de 1550 a.C. Nele, médicos recomendavam a aplicação de leite materno humano diretamente nos olhos para tratar diferentes problemas — de inflamações a dificuldades de visão.
Durante muito tempo, esse tipo de indicação foi interpretado como algo simbólico ou ligado à mitologia. A associação com a deusa Ísis, frequentemente retratada amamentando Hórus, reforçou a ideia de que se tratava mais de ritual do que de medicina prática. O detalhe curioso de que o leite deveria vir de uma mulher que tivesse dado à luz um menino também parecia apontar nessa direção.
Mas a nova pesquisa, publicada no Journal of Ocular Pharmacology and Therapeutics, propõe outra leitura: pode haver, sim, uma base biológica por trás da recomendação.
O leite materno humano é rico em compostos ativos, como fatores de crescimento — entre eles o EGF, o TGF-α e o IGF-1 — conhecidos por estimular a regeneração e cicatrização de tecidos. Esses mesmos mecanismos são explorados hoje em tratamentos oftalmológicos modernos.
Um exemplo são as chamadas lágrimas de soro autólogo, colírios produzidos a partir do próprio sangue do paciente e utilizados em casos graves de síndrome do olho seco. Embora eficazes, esses tratamentos têm custo elevado e não são amplamente acessíveis.
Nesse contexto, o leite materno surge como uma alternativa potencialmente mais simples — ao menos em teoria. Ainda não há ensaios clínicos robustos que comprovem sua eficácia em adultos, mas alguns sinais iniciais chamam a atenção dos pesquisadores.
Experimentos em modelos animais mostraram que o leite humano pode acelerar a cicatrização da córnea após lesões. Além disso, o uso de colostro — o primeiro leite produzido após o parto, altamente concentrado em nutrientes — nos olhos de bebês prematuros foi associado a uma menor incidência de conjuntivite.
Esses resultados não são suficientes para transformar a prática em recomendação médica. Especialistas alertam que a aplicação direta de substâncias nos olhos exige rigor, controle e segurança — fatores que ainda não foram estabelecidos para esse uso específico.
Ainda assim, a redescoberta de um conhecimento tão antigo levanta uma questão interessante: até que ponto práticas consideradas arcaicas podem esconder princípios que a ciência moderna começa apenas agora a entender?
No cruzamento entre tradição e biologia, o leite materno nos olhos deixa de ser apenas uma curiosidade histórica. E passa a ocupar um espaço mais intrigante — o de hipótese científica em construção.
*Escrito para o eDairyNews, com informações de ZAP






