A La Serenísima muda de controle e redefine o centro de gravidade da indústria láctea argentina.
A saída da família Mastellone, após quase um século, consolida a operação sob gestão integrada de Danone e Arcor, via Bagley, e encerra um ciclo histórico com implicações diretas sobre estrutura, execução e competição no mercado.
O movimento se materializa com a aquisição de 51,323% do capital que ainda estava nas mãos da família fundadora e do fundo Dallpoint Investments LLC. Danone e Arcor já detinham 49% e passam agora ao controle pleno do negócio lácteo, ainda sujeito a aprovações regulatórias. A operação ocorre após um ano de negociações tensas, com divergências marcantes de valuation que quase levaram a disputa ao campo judicial. O valor final não foi divulgado.
O que muda não é apenas o controle acionário. A principal transformação está no modelo de gestão. Até então, a marca era operada de forma segmentada: Mastellone concentrava leites e queijos duros e semiduros, enquanto Danone conduzia produtos frescos, como iogurtes, sobremesas e queijos moles. Com o novo arranjo, a gestão passa a ser unificada em um joint venture que integra portfólio, decisões e execução, incluindo também a Logística La Serenísima.
Essa integração altera a mecânica do negócio. Ao eliminar a divisão operacional entre categorias, o novo comando ganha capacidade de coordenar portfólio, otimizar processos e acelerar decisões comerciais. O foco declarado está no mercado local, com uma estrutura que combina ativos industriais e capacidades complementares das duas companhias. A operação envolve 11 plantas produtivas na região, com produção de leite, doce de leite, queijos, manteiga, creme, iogurtes e sobremesas.
Do ponto de vista competitivo, a mudança reposiciona a empresa. A unificação de estratégia tende a reduzir fricções internas e alinhar desenvolvimento de produtos, distribuição e execução comercial. Ao mesmo tempo, amplia a escala de atuação conjunta de Danone e Arcor dentro da categoria, consolidando presença em diferentes segmentos sob uma única lógica de gestão.
O processo que levou a esse desfecho também revela tensões típicas de transições de controle em ativos relevantes. Em 2025, a oferta inicial para aquisição da participação remanescente não superava US$ 40 milhões, enquanto os vendedores estimavam valor próximo a US$ 250 milhões. A distância entre as partes expôs o descompasso de expectativas e prolongou as negociações até o fechamento recente, mediado pelo próprio Dallpoint.
Para a cadeia láctea, o impacto imediato está na mudança de governança e na centralização das decisões. A saída definitiva da família encerra um modelo histórico de condução e dá lugar a uma lógica corporativa integrada, com potencial de alterar ritmos operacionais, prioridades comerciais e dinâmica competitiva.
Mais do que uma transação, o movimento marca a transição entre duas formas de organizar o negócio lácteo no país. A marca permanece, mas o sistema que a sustenta já é outro.
*Escrito para o eDairyNews, com informações de EDairyNews Español






