O acordo entre Mercosul e União Europeia começa a mudar o peso econômico das Indicações Geográficas brasileiras.
Para produtos ligados à origem territorial, especialmente os queijos artesanais, a proteção internacional deixa de ser apenas reconhecimento simbólico e passa a operar como ferramenta comercial e estratégica.
A entrada em vigor provisória do acordo em 1º de maio amplia a proteção jurídica de produtos brasileiros registrados como Indicação Geográfica (IG), impedindo o uso indevido desses nomes por produtores estrangeiros. Entre os itens protegidos estão o Queijo Canastra e o Queijo Minas Artesanal do Serro.
O movimento aproxima os produtos brasileiros de uma lógica já consolidada na Europa, onde origem, autenticidade e reputação funcionam como ativos de mercado. Para a cadeia láctea, isso representa uma mudança relevante: a diferenciação deixa de depender apenas de escala ou preço e passa a incorporar identidade territorial como elemento competitivo.
Na prática, os queijos brasileiros entram em uma disputa global mais baseada em valor do que em volume. O reconhecimento internacional reforça a legitimidade desses produtos em mercados que valorizam tradição, procedência e autenticidade.
Mas o próprio setor reconhece que o acordo, sozinho, não garante acesso efetivo nem expansão automática. Segundo Rafael Mafra, coordenador de Estratégia Negociadora do Ministério da Agricultura e Pecuária, o aproveitamento das oportunidades depende da capacidade dos territórios produtores de manter qualidade consistente e oferta estruturada.
Esse talvez seja o ponto mais importante para a cadeia produtiva. O acordo cria proteção e abre possibilidades comerciais, mas também aumenta a pressão sobre governança territorial, coordenação entre produtores e padronização operacional.
A valorização da origem passa a exigir consistência produtiva. Em outras palavras, o diferencial territorial ganha força apenas quando consegue ser sustentado ao longo da cadeia.
O tema estará no centro das discussões do Connection Terroirs do Brasil 2026, realizado entre 10 e 13 de junho, em Gramado (RS). O painel reunirá representantes do Ministério da Agricultura e Pecuária, do INPI e da UFRGS para discutir justamente como os acordos internacionais podem transformar identidade territorial em vantagem competitiva.
Além da União Europeia, o Mercosul também avança nas negociações com a EFTA, grupo formado por Suíça, Noruega, Islândia e Liechtenstein. Segundo Daniel França, pesquisador do INPI, o reconhecimento europeu cria um precedente importante para futuras negociações internacionais envolvendo produtos brasileiros com IG.
As negociações já começam a produzir efeitos internos. De acordo com França, novas práticas foram incorporadas à regulamentação nacional das Indicações Geográficas e políticas públicas passaram a ser formuladas para promover esses ativos.
O movimento mostra que os acordos internacionais começam a influenciar não apenas exportações, mas também a organização das cadeias produtivas regionais. Para o setor lácteo, isso reforça uma mudança de posicionamento: produtos de origem deixam de ocupar apenas um espaço cultural e passam a integrar uma estratégia mais ampla de diferenciação e competitividade.
*Produzido pela eDairyNews, com informações publicadas por Globo Rural






