A investigação antidumping de lácteos no Brasil avança em um momento de forte expansão da oferta regional, com a remessa de leite à Conaprole registrando crescimento expressivo em março.
A combinação entre maior disponibilidade exportável e incerteza regulatória no principal destino coloca o fluxo comercial sob pressão.
A cooperativa uruguaia processou 114 milhões de litros no mês, com aumento interanual de 18%. O avanço ocorre após um início de ano mais moderado e reflete, em parte, a base de comparação mais baixa, já que uma onda de calor havia afetado a produção no mesmo período do ano anterior. Ainda assim, o dado sinaliza um volume adicional relevante disponível para industrialização e potencial exportação.
Esse movimento ganha peso ao considerar que o Brasil responde por mais de um terço das exportações de lácteos do Uruguai, além de ser um dos poucos mercados com algum grau de preferência tarifária para o produto industrial. Com maior oferta, a dependência desse canal se torna ainda mais sensível a mudanças regulatórias.
No centro desse cenário está a decisão pendente do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC), que conduz uma investigação antidumping sobre importações de lácteos provenientes do Uruguai e da Argentina. Um primeiro resultado, em agosto de 2025, havia descartado a existência de práticas de dumping. No entanto, a contestação apresentada pela Confederação da Agricultura do Brasil reabriu o processo e recolocou o tema na agenda bilateral.
A pressão interna no Brasil também se intensificou. O Frente Parlamentar Agropecuário solicitou a abertura de uma investigação na Câmara dos Deputados para avaliar os impactos das importações sobre os produtores locais. No plano político, há demanda por respostas mais rápidas do governo federal diante da percepção de distorções no mercado. A continuidade da investigação é vista como um passo relevante, ainda que insuficiente no curto prazo.
O desfecho do processo regulatório tem implicações diretas. Caso a decisão seja desfavorável, há risco grave para as colocações de leite em pó no mercado brasileiro. Diante desse cenário, Uruguai e Argentina já preveem recorrer à Organização Mundial do Comércio, estratégia conduzida por assessoria jurídica no Brasil.
Enquanto isso, os indicadores industriais reforçam a consistência da matéria-prima. A remessa registrada apresentou teor médio de gordura de 4,2% e proteína de 3,69%, níveis que sustentam a produção de derivados com maior valor agregado.
A convergência entre maior oferta e incerteza regulatória redefine o equilíbrio no mercado regional. A decisão do MDIC passa a ser o principal ponto de inflexão para o fluxo de lácteos no curto prazo, em um contexto onde o volume disponível cresce mais rápido do que a previsibilidade comercial.
*Escrito para o eDairyNews, com informações de Tardáguila e Blasina y Asociados






