A Danone deve vender participação na Lifeway após um ciclo de tentativas frustradas de aquisição e disputa societária que alterou o equilíbrio de poder entre as empresas.
O novo acordo de cooperação firmado no fim de 2025 reduz o controle da multinacional francesa e estabelece, na prática, um caminho estruturado para saída.
O ponto central é a perda de influência da Danone. A empresa abriu mão de direitos-chave, como assento no conselho e participação em decisões sobre remuneração da gestão. Esse movimento, combinado com a revisão de alternativas estratégicas já em curso, indica mudança de posicionamento: de potencial compradora para provável vendedora.
O acordo também define que obrigações do contrato original deixam de valer quando a participação cair abaixo de determinado nível. Em paralelo, a Lifeway registrará uma estrutura que permite a venda das ações da Danone ao longo do tempo, com limites para evitar impacto abrupto no mercado. Há ainda uma cláusula de não desvalorização mútua válida até dois anos após a saída completa.
A saída não tende a ser imediata. O desenho é de redução gradual da fatia, condicionada às condições de mercado. Isso reduz volatilidade e preserva valor, mas consolida a direção estratégica: a Danone não busca mais controle.
O histórico recente reforça essa leitura. Em 2024, duas propostas de aquisição foram rejeitadas pela Lifeway, que considerou os valores abaixo do potencial da empresa. Em 2025, a disputa escalou para um processo judicial por supostas violações do acordo societário, seguido de tentativas de mudança no conselho. As negociações foram retomadas, mas fracassaram após due diligence. O acordo final encerra o conflito operacional, mas não recompõe a tese de integração.
Impacto para a Lifeway
A separação tende a aliviar pressão financeira. Em 2025, despesas administrativas cresceram US$ 2,16 milhões, sendo cerca de 80% relacionadas a custos legais e profissionais ligados à disputa com a Danone. Esse peso ocorreu em um momento de desempenho operacional positivo.
A empresa reportou aumento no lucro líquido, recorde de vendas e crescimento relevante do lucro bruto, mesmo com alta no custo dos produtos vendidos. Mantém ainda a meta de EBITDA ajustado entre US$ 45 milhões e US$ 50 milhões para 2027.
No mercado, a Lifeway avança com inovação em lácteos fermentados, combinando proteína, controle de peso e saúde intestinal. O portfólio inclui desde manteiga probiótica até bebidas prontas sem lactose voltadas a performance. A estratégia também dialoga com consumidores de medicamentos GLP-1 e com diretrizes alimentares que passam a reconhecer benefícios de alimentos fermentados.
A provável saída da Danone reconfigura um caso relevante de parceria entre grande multinacional e player especializado. De um lado, evidencia o limite de integração quando há divergência de valuation e governança. De outro, mostra que empresas menores podem sustentar crescimento e inovação mesmo sob pressão societária.
O movimento reforça dois vetores. Primeiro, o valor estratégico dos lácteos fermentados como plataforma de crescimento. Segundo, a importância de estruturas societárias claras para evitar destruição de valor via custos legais e desalinhamento estratégico.
O desfecho não é imediato, mas a direção está definida: menos integração, mais independência e um processo ordenado de saída.
*Escrito para o eDairyNews, com informações de Dairy Reporter






