A Danone fechou o primeiro semestre de 2026 com lucro líquido de 1,175 bilhão de euros (US$ 1,27 bilhão), um avanço de 13% sobre o mesmo período do ano anterior.
As vendas do segundo trimestre também superaram as projeções dos analistas consultados pela Dow Jones. Mesmo assim, as ações da companhia francesa caíram entre 3,7% e cerca de 4% na sessão em que os resultados foram divulgados, chegando a uma mínima de €69,32 — distante da máxima de 52 semanas, de €80,14.
O paradoxo tem explicação na composição do crescimento. A receita do segundo trimestre somou 7,215 bilhões de euros (US$ 7,79 bilhões), alta de 4,2% em base comparável, acima do consenso de 3,7%. Mas, dentro desse número, o aumento de preços respondeu por 2,3 pontos percentuais, enquanto o volume vendido cresceu apenas 1,9% — abaixo dos 2,2% que o mercado esperava.
Ou seja, a empresa vendeu mais caro, não necessariamente mais. O analista James Edwardes Jones, do RBC, destacou esse ponto em relatório, comparando o desempenho ao da concorrente Unilever, que no dia anterior havia reportado volumes mais robustos.
O item que mais pesou na leitura dos investidores, no entanto, veio da China. A Danone reverteu parte da crise que havia afetado sua divisão de Nutrição Especializada no primeiro trimestre — quando um recall de fórmulas infantis na Europa e interrupções de fornecimento ligadas à guerra no Irã derrubaram o desempenho da unidade. Agora, essa divisão, que reúne os produtos de maior margem da empresa, cresceu 4,5% no trimestre.
O problema é que o ritmo de vendas na China, especificamente, caiu para 3,6% — muito abaixo dos 10,3% registrados no primeiro trimestre.
A Danone atribuiu a desaceleração a uma “normalização” das pressões competitivas no segmento de fórmulas infantis, mas analistas do banco Jefferies classificaram o movimento como “uma desaceleração notável” e alertaram para um risco estrutural: a queda acentuada nas taxas de natalidade no país, que ameaça de forma duradoura um dos negócios mais lucrativos da companhia.
O clima também entrou na equação, mas do lado positivo. Um verão quente na Europa impulsionou as vendas de água engarrafada, que cresceram 4,7% no trimestre, com destaque para a marca Volvic. As águas Evian e Badoit, junto com o iogurte Activia, completam o portfólio de marcas mais conhecidas do grupo.
A reação do mercado financeiro também refletiu uma disputa de narrativas entre analistas. Cerca de uma semana antes da divulgação dos resultados, o banco Jefferies havia rebaixado a recomendação da Danone para “Underperform”, citando não só o cenário chinês, mas também a perda de participação de mercado da empresa no segmento de iogurtes na América do Norte para a concorrente Chobani.
Do outro lado, o Goldman Sachs manteve recomendação de compra e elevou seu preço-alvo para o papel — uma leitura mais otimista que, no fim, não foi suficiente para conter as vendas da ação na sessão.
Nos demais indicadores do semestre, o lucro operacional recorrente somou 1,854 bilhão de euros (US$ 2,11 bilhões), com margem de 13,3% — ligeiramente acima dos 13,2% do ano anterior e também acima da expectativa de 13,25%.
A empresa atribuiu o resultado a ganhos de produtividade que compensaram o impacto do recall de fórmulas infantis na Europa e os efeitos iniciais da inflação. Já o lucro recorrente antes de impostos chegou a 1,71 bilhão de euros (US$ 1,85 bilhão), superando o consenso de 1,66 bilhão de euros.
Analistas também notaram que a queda das ações não teve relação com o contexto mais amplo do mercado: o CAC 40, principal índice da bolsa de Paris, não deu nenhum impulso ou obstáculo particular ao papel, enquanto os índices americanos operavam em leve alta no mesmo dia.
A Nestlé, outra gigante do setor de alimentos, já havia divulgado seus resultados semestrais na semana anterior, descartando qualquer efeito de contágio setorial. O movimento, portanto, foi lido pelo mercado como estritamente ligado aos números — e aos riscos — da própria Danone.
Apesar da turbulência na bolsa, a empresa reiterou suas projeções para 2026, mantendo a meta de crescimento de vendas em base comparável entre 3% e 5%, com o lucro operacional recorrente avançando mais rápido do que as vendas.






