A forma como a proteína do leite de vaca é processada antes de chegar às fórmulas infantis voltou ao centro do debate científico.
Um estudo publicado na revista Pediatric Allergy and Immunology, conduzido por Sekkidou et al. (2026), acompanhou crianças de alto risco alérgico até os 5 anos de idade e encontrou reduções expressivas em dermatite atópica e alergia alimentar entre bebês que receberam fórmula parcialmente hidrolisada (pHF) nos primeiros seis meses de vida.
O achado interessa diretamente a um setor que vive da matéria-prima por trás dessa tecnologia: a hidrólise parcial é um processo que quebra a proteína do leite de vaca em peptídeos de menor peso molecular, reduzindo sua capacidade de provocar reações alérgicas.
É essa modificação — realizada sobre a própria proteína láctea — que sustenta a hipótese de que a fórmula pode favorecer o desenvolvimento de tolerância imunológica precoce nos primeiros meses de vida, um período considerado crítico para o sistema imune do bebê.
Até aqui, a evidência científica sobre esse tipo de fórmula era heterogênea. Tanto que diretrizes recentes passaram a não recomendar o uso rotineiro de pHF para prevenção de alergia, citando a baixa qualidade dos estudos disponíveis.
É nesse contexto que o novo trabalho ganha peso: ele deriva do Allergy Reduction Trial (A.R.T.), um ensaio multicêntrico, randomizado e duplo-cego, que comparou três grupos — aleitamento materno exclusivo (observacional), fórmula padrão com proteína intacta e fórmula parcialmente hidrolisada, usada isoladamente ou em alimentação mista — em crianças com histórico familiar de alergia.
O resultado mais expressivo apareceu na alergia alimentar: o grupo que recebeu pHF teve 47% menos risco de desenvolver o quadro até os 5 anos, com significância estatística (p = 0,03). O efeito ficou ainda mais nítido na faixa entre 1 e 5 anos, quando a diferença chegou a 87% de redução relativa — 1,5% de incidência no grupo pHF contra 12,4% no grupo de fórmula padrão (p = 0,007).
Os autores destacam esse como o principal resultado do estudo, embora baseado em um número relativamente pequeno de casos.
A dermatite atópica também recuou de forma consistente: 22,1% de incidência acumulada até os 5 anos no grupo pHF, contra 38,5% no grupo de fórmula padrão — uma redução de 42% (p = 0,003), concentrada principalmente nos primeiros meses de vida.
Somando todas as manifestações alérgicas avaliadas, o risco global caiu de 51,7% para 32,7% no grupo pHF (RR 0,73), embora esse resultado tenha se mostrado menos robusto do que o observado especificamente para alergia alimentar.
Nem todos os desfechos acompanharam essa tendência. Asma e rinite alérgica não apresentaram diferença estatisticamente significativa entre os grupos até os 5 anos — um resultado que os próprios pesquisadores consideram esperado, já que as manifestações respiratórias da chamada marcha atópica costumam surgir mais tarde na infância.
Para a cadeia produtiva do leite, o estudo reforça um ponto que vai além da pediatria: a proteína láctea, processada com a tecnologia certa, segue sendo protagonista nas estratégias de prevenção de doenças alérgicas infantis — um mercado que combina ciência, nutrição e valor agregado ao redor do mesmo insumo que sai do tambo.
Já para o pediatra geral, a mensagem dos autores não é substituir condutas estabelecidas, mas incorporar uma visão mais refinada: o período neonatal é crítico para o desenvolvimento imunológico, a nutrição precoce pode modular o risco alérgico, e as decisões devem ser individualizadas, especialmente em crianças de alto risco.
*Produzido pela eDairyNews, com informações publicadas por Portal Afya






