Em Navarra, no norte da Espanha, 142 fazendas leiteiras somam cerca de 25 mil vacas — um número que, segundo o próprio governo regional, é equivalente ao rebanho de uma única macrogranja de grande porte.
A comparação não é acidental: ela sustenta a escolha política e técnica da região por manter a produção de leite distribuída entre pequenas e médias propriedades, em vez de concentrá-la em instalações industriais de larga escala.
Esse modelo tem nome: produção integrada de leite. E um de seus elementos mais visíveis — e mais comentados — é o uso de música nos estábulos. Melodias suaves, peças clássicas ou jotas regionais tocam durante a rotina das vacas, especialmente na hora da ordenha.
A intenção não é criar um ambiente pitoresco para visitantes, mas reduzir o estresse do rebanho, já que animais sob pressão liberam mais cortisol, hormônio que interfere diretamente na liberação de ocitocina e dificulta a descida do leite.
A prática ganhou visibilidade nacional na Espanha em maio de 2021, quando a RTVE Navarra publicou uma reportagem assinada pelo jornalista Alejandro Gonzalo mostrando fazendas onde, além da música, as vacas contam com aspersores para se refrescar em dias de calor e rascadores — equipamentos que permitem que os animais se massageiem sozinhos.
O número de cabeças por propriedade é controlado deliberadamente para evitar a superlotação, considerada um fator direto de queda na qualidade do leite.
Mas a experiência de Navarra com música para vacas é anterior à reportagem. Em 2016, a SAT Lacturale, cooperativa de produtores com sede em Etxeberri-Arakil, inaugurou oficialmente o uso de música em suas instalações durante uma festa que antecedia os Sanfermines.
Crianças da Escola de Jotas Irabia cantaram para os animais, que receberam até lenços vermelhos como parte da celebração. À época, o presidente da cooperativa, Juanma Garro, associou a iniciativa a um pedido dos próprios consumidores e à ideia de que cuidar bem das vacas é condição para obter um leite de melhor qualidade.
Nos testes conduzidos pela própria Lacturale, a produção chegou a aumentar em até 5 litros por vaca por dia, com leite mais rico em proteínas. São dados reportados pela empresa como experiência interna, não como resultado de um estudo científico controlado de grande escala — mas que caminham na mesma direção do que pesquisas acadêmicas têm registrado em diferentes países.
Um levantamento da Universidade de Leicester, no Reino Unido, identificou que melodias lentas e harmoniosas — como composições de Beethoven ou baladas suaves — podem elevar a produção de leite em cerca de 3%, atribuindo o efeito à redução do estresse e à maior liberação de ocitocina.
Já estudos conduzidos no Equador, no Paraguai, na República Dominicana e no Brasil observaram melhorias no comportamento das vacas durante a ordenha: menos movimentos de cabeça e cauda, menos mugidos, menor frequência de defecação e micção, e redução no número de células somáticas — indicador relacionado à saúde do úbere.
Em alguns desses estudos o volume de leite aumentou; em outros, o ganho principal apareceu na qualidade do produto e na tranquilidade do rebanho. Música em ritmo rápido ou volume elevado, por outro lado, tende a produzir o efeito inverso, razão pela qual as fazendas que adotam a prática optam por repertórios calmos e volumes moderados.
A pecuária leiteira brasileira já observa esse tipo de manejo. Produtores em Minas Gerais, Paraná, Santa Catarina e Espírito Santo têm testado música clássica, forró ou rádio durante a ordenha, relatando maior tranquilidade dos animais e, em alguns casos, ganhos de produtividade — seguindo a mesma lógica fisiológica identificada nos estudos internacionais.
A diferença em relação a Navarra está na estrutura: a região espanhola opera sob um selo oficial de produção integrada, com regras formais de densidade animal e de alimentação, enquanto no Brasil esse tipo de prática ainda depende majoritariamente de iniciativas individuais ou de programas voluntários de certificação.
Isso conecta a música a outro pilar do modelo de Navarra: a alimentação. Na Lacturale, pelo menos 80% da dieta das vacas é composta por forragem natural — erva e milho — produzida na própria região. Essa exigência de pasto e forragem locais gera um efeito em cadeia: fortalece a economia rural, mantém circuitos curtos de comercialização e ajuda a conter o despovoamento do interior.
O governo foral de Navarra apoia abertamente esse caminho e já se posicionou contra projetos de escala industrial — como no caso da proposta de uma macrogranja em Caparroso, à qual a administração regional impôs todos os obstáculos legais ao seu alcance, alegando a defesa da permanência e da convivência das comunidades locais.
O resultado, segundo os produtores e técnicos ouvidos na reportagem original, é um leite com perfil nutricional e sanitário diferenciado, obtido não por um único fator, mas pela combinação entre baixa densidade animal, alimentação vinculada ao território e redução ativa do estresse — do qual a música é apenas a parte mais audível.
*Produzido pela eDairyNews, com informações publicadas por Tribuna de Jundiaí






