No meio de uma das regiões mais áridas do planeta, a Argélia está erguendo uma fazenda leiteira que rompe qualquer parâmetro conhecido no setor.
O projeto, orçado em cerca de US$ 3,5 bilhões, prevê a instalação progressiva de 270 mil vacas em um único complexo de 117 mil hectares na província de Adrar, no sudoeste do país, em plena zona desértica do Saara.
A iniciativa é financiada em conjunto pelo Fundo Nacional de Investimentos da Argélia e pela empresa láctea catari Baladna Q.P.S.C., e não se limita à criação de gado: reúne, em um único sistema, o cultivo de forragem, o alojamento e manejo do rebanho, a ordenha e a industrialização da leite, com capacidade projetada de até 100 mil toneladas de leite em pó por ano.
Segundo as estimativas do próprio projeto, esse volume seria suficiente para cobrir cerca de 50% da demanda argelina por leite em pó, reduzindo a dependência do país das importações.
O desafio central, porém, não está na escala do rebanho, mas no ambiente em que ele vai operar. Em Adrar, as temperaturas ultrapassam os 40°C durante mais de 130 dias por ano — uma condição que afeta diretamente o consumo de alimento, a reprodução, a saúde e a produtividade das vacas, e que exige sistemas permanentes de refrigeração, ventilação e vigilância veterinária, resistentes ao calor, à poeira e à areia.
Nesse contexto, a água se torna tão decisiva quanto a genética animal ou a eficiência da ordenha. Parte substancial das 117 mil hectares do complexo será destinada ao cultivo de forragem, irrigado ininterruptamente ao longo do ano por sistemas de pivô central.
Para sustentar essa operação, a empresa Green Power Systems forneceu 50 grupos geradores GP330 S/I-A, equipados com motores FPT Cursor 13, cada um capaz de entregar até 330 quilovolt-ampères, garantindo que a irrigação funcione 24 horas por dia. Qualquer interrupção prolongada nesse sistema energético comprometeria diretamente o abastecimento de alimento do rebanho — e, por extensão, toda a cadeia produtiva.
O povoamento do rebanho já começou. Um primeiro contingente de 30 mil vacas da raça Holandesa foi transportado por avião dos Estados Unidos até a Argélia, em uma operação logística que levou vários meses. Esse número deverá crescer progressivamente até atingir as 270 mil cabeças previstas no projeto completo.
Do ponto de vista econômico, a Baladna informou que, apenas na segunda fase do empreendimento, já foram firmados contratos por mais de US$ 635 milhões.
As projeções de geração de empregos variam conforme a fonte: a FPT, fornecedora dos motores, estima cerca de 5 mil postos de trabalho locais, enquanto a Baladna projeta mais de 15 mil empregos na fase seguinte de investimento — uma diferença que reflete metodologias distintas de cálculo, incluindo ou não atividades indiretas e temporárias.
Áreas como construção, produção agrícola, manejo do rebanho, sanidade animal, manutenção, transporte e processamento industrial deverão demandar mão de obra especializada.
A entrada em operação plena está prevista para o final de 2027, com desenvolvimento por etapas até que o rebanho e a capacidade industrial atinjam seu tamanho final.
Até lá, o sucesso do empreendimento dependerá menos do número de vacas e mais da capacidade de sustentar, de forma contínua, um ecossistema artificial de água, energia e infraestrutura em pleno deserto — um modelo de produção leiteira que se distancia completamente dos sistemas pastoris tradicionais e que colocará à prova se a intensificação tecnológica consegue, de fato, sustentar produtividade em larga escala em um dos ambientes agrícolas mais hostis do mundo.
*Produzido pela eDairyNews, com informações publicadas por Los Agronegocios






