Nem toda vaca leiteira precisa ser reposta por outra vaca leiteira. Essa constatação simples está por trás de uma mudança de estratégia que começa a ganhar espaço nas propriedades brasileiras:
Usar genética Angus para inseminar as fêmeas que não entrarão no plantel de reposição do próprio rebanho leiteiro.
O resultado é um bezerro com perfil voltado à produção de carne — e, portanto, com valor comercial mais alto do que teria dentro da cadeia tradicional do leite. É esse o princípio do Angus on Dairy, estratégia que integra as cadeias de leite e carne bovina e que ganhou destaque durante a Agroleite, realizada em Castro, nos Campos Gerais do Paraná, em parceria com a CooperAliança.
A lógica é direta: depois de garantir a reposição necessária do próprio rebanho, o produtor pode direcionar parte das vacas para inseminação com genética Angus, encaminhando os animais resultantes desses cruzamentos para sistemas de produção de carne. Um animal que teria pouca valorização na cadeia do leite passa a ter potencial comercial dentro da cadeia da carne.
Maychel Borges, gerente nacional do Programa Carne Angus Certificada, da Associação Brasileira de Angus, descreve o Angus on Dairy como uma ferramenta de rentabilidade adicional para as fazendas: o produtor deixa de depender só do leite e passa a gerar valor também com animais destinados à produção de carne de qualidade.
Para a entidade, o potencial vai além do número de animais abatidos. O desafio, segundo Borges, é conciliar o aumento de volume com a manutenção dos padrões qualitativos exigidos pelo mercado de carne premium — e é aí que entra a genética Angus, reconhecida por características ligadas à qualidade da carne e capaz de tornar os animais oriundos de rebanhos leiteiros mais adequados a cortes de maior valor agregado.
A Agroleite serviu como vitrine prática dessa proposta: durante o evento, foram apresentados cortes como acém, chorizo e ancho produzidos a partir de animais gerados pelo cruzamento entre bovinos de corte e leiteiros, demonstrando o potencial comercial desses animais na cadeia de carnes de maior valor.
O Angus on Dairy é um desdobramento de um conceito mais amplo, o Beef on Dairy, que propõe usar a reprodução dos rebanhos leiteiros de forma mais estratégica: direcionar genética especializada em carne justamente para as vacas que não serão usadas na geração das futuras matrizes da propriedade.
Assim, a fazenda mantém seu planejamento de reposição normalmente e, ao mesmo tempo, passa a produzir bezerros com características mais interessantes para engorda e comercialização.
Mateus Pivato, diretor executivo da Associação Brasileira de Angus, vê espaço para levar essa genética a propriedades onde a raça ainda tem participação limitada, abrindo novas oportunidades econômicas para produtores de leite que hoje não exploram esse cruzamento.
O sucesso do sistema, no entanto, não depende só da escolha genética. Borges e Pivato apontam que planejamento reprodutivo, manejo nutricional, sanidade, definição correta dos acasalamentos e organização da comercialização são condições necessárias para que a estratégia realmente se traduza em resultado financeiro para o produtor.
Do lado da indústria frigorífica, a expansão do modelo representa uma nova origem de matéria-prima com padrão genético direcionado à produção de carne premium. Hoje, o Programa Carne Angus Certificada já opera com 29 parceiros e 60 plantas em produção, distribuídas por 13 estados: Rio Grande do Sul, Santa Catarina, Paraná, São Paulo, Minas Gerais, Distrito Federal, Goiás, Mato Grosso do Sul, Mato Grosso, Tocantins, Pará, Rondônia e Bahia.
Equipes especializadas acompanham as unidades frigoríficas e avaliam as carcaças recebidas para verificar se atendem aos critérios do programa, garantindo origem e padrão aos produtos vendidos com o selo.
Com produtores de leite buscando alternativas para melhorar margens em um cenário de pressão sobre a rentabilidade, o Angus on Dairy surge como uma via para diversificar o faturamento da propriedade sem abrir mão da atividade leiteira principal — e, do outro lado da cadeia, como uma fonte adicional de animais com genética voltada a cortes de maior valor para o mercado de carne bovina premium.
*Produzido pela eDairyNews, com informações publicadas por Portal do Agronegócio






