A falência do Grupo Ricoy transforma em um novo capítulo uma crise que já havia atingido diretamente a cadeia do leite em São José dos Quatro Marcos, em Mato Grosso.
O encerramento das atividades do Laticínio Vencedor deixou aproximadamente 285 produtores afetados e expôs uma sequência de pagamentos em atraso.
A decisão da Justiça de São Paulo converteu em falência a recuperação judicial iniciada pelo grupo em novembro de 2025. Ao todo, 33 empresas fazem parte do processo, que reúne cerca de R$ 461 milhões em dívidas e mais de 4,6 mil credores.
O caso ganhou dimensão particularmente relevante para o setor lácteo porque o Laticínio Vencedor era uma das principais indústrias compradoras de leite da região.
Uma indústria que deixou de comprar
Instalado em São José dos Quatro Marcos desde fevereiro de 2000, o laticínio chegou a empregar mais de 160 funcionários e a beneficiar cerca de 200 mil litros de leite por dia.
O fechamento aconteceu depois de um período de dificuldades financeiras e atrasos nos pagamentos aos fornecedores de leite. Em novembro de 2025, produtores chegaram a realizar uma manifestação em frente à fábrica para cobrar os valores referentes ao leite entregue.
A questão também foi levada à prefeitura. Representantes do laticínio se reuniram com o então prefeito Jamis Silva Bolandin para tratar das dívidas e informaram que buscavam alternativas para quitá-las em até seis meses.
Esse prazo, porém, não resolveu o problema para os produtores que continuaram com valores em aberto.
O tamanho do impacto no campo
Segundo os produtores, pelo menos 18 fornecedores tinham mais de R$ 30 mil a receber. Para alguns, o prejuízo chegou a R$ 190 mil.
Os débitos mencionados envolvem setembro de 2025, janeiro e fevereiro de 2026 e os primeiros 25 dias de março daquele ano.
Sem receber pelo leite já entregue, alguns pecuaristas precisaram vender animais, renegociar financiamentos bancários e reduzir investimentos nas propriedades para manter a produção.
O fechamento também alterou as condições de comercialização na região. Como o Laticínio Vencedor absorvia uma parcela significativa do leite produzido localmente, os produtores tiveram de procurar novos compradores em um mercado com menos opções. O cenário também provocou redução nos preços pagos pelo leite.
Quando a saída passa pelos próprios produtores
Diante desse cenário, surgiu uma tentativa de recuperar a estrutura que havia sido perdida.
Menos de um mês após o fechamento, uma reunião promovida pela Prefeitura de São José dos Quatro Marcos reuniu produtores e fornecedores para discutir a criação de uma cooperativa capaz de assumir a operação do laticínio.
A proposta prevê o aluguel da estrutura industrial por um valor simbólico e um período de carência para reorganizar a operação e possibilitar a retomada das atividades.
A iniciativa representa, para os produtores envolvidos, uma tentativa de recuperar não apenas a indústria, mas também uma alternativa de comercialização para o leite produzido na região.
A crise empresarial chega ao ponto final
Enquanto os produtores discutiam essa possibilidade em Mato Grosso, o processo de recuperação judicial do Grupo Ricoy avançava para outro desfecho.
A recuperação judicial havia sido protocolada em 29 de outubro de 2025, com medidas que incluíam ajustes administrativos, fechamento e venda de unidades e revisão das operações.
O plano apresentado, entretanto, foi rejeitado pelos credores da Classe III durante a assembleia. Uma proposta alternativa também não obteve apoio suficiente.
Com a rejeição das alternativas de reestruturação, a Justiça determinou a conversão da recuperação judicial em falência das 33 empresas integrantes do processo.
Os créditos sujeitos à recuperação judicial estão distribuídos entre 2.824 credores trabalhistas, que somam R$ 50,7 milhões; 653 credores da Classe III, com R$ 385,9 milhões; e 1.194 micro e pequenas empresas, que somam R$ 24,6 milhões.
Para a cadeia leiteira de São José dos Quatro Marcos, porém, a crise empresarial já havia produzido seu efeito mais concreto antes da decisão judicial: a perda de uma indústria que durante mais de duas décadas comprou e processou leite na região.
*Produzido pela eDairyNews, com informações publicadas por Primeira Página






