O Brasil acaba de conquistar uma posição que poucos esperavam há alguns anos: é o segundo país do mundo em crescimento absoluto de lançamentos de produtos com proteína do leite, atrás apenas dos Estados Unidos.
Os dados são da Innova Market Insights e mostram que, em 2025, o país somou 119 lançamentos a mais do que em 2024 nessa categoria — um avanço de quase 16% que também garantiu ao Brasil a 10ª colocação no ranking mundial geral de lançamentos com proteína láctea (MPC/MPI). No mesmo período, o crescimento global desses lançamentos superou 8%, um recorde histórico para o setor.
Por trás desses números está uma mudança de comportamento que interessa diretamente a quem produz e industrializa leite no país: a proteína láctea deixou de ser um ingrediente de nicho, associado apenas à nutrição esportiva, para se espalhar por praticamente todas as categorias de alimentos e bebidas.
Da quantidade para a qualidade
Durante um seminário promovido pelo USDEC (U.S. Dairy Export Council) em São Paulo, que reuniu mais de 52 compradores, equipes de P&D e profissionais da indústria de alimentos e bebidas, especialistas destacaram que o consumidor mudou a pergunta que faz na hora da compra. Não se trata mais de saber quantos gramas de proteína um produto tem, mas o que essa proteína realmente faz pelo organismo — suporte imunológico, saúde cerebral e síntese muscular estão entre os benefícios que hoje pesam na decisão de compra.
Nem toda proteína, porém, entrega o mesmo resultado. “Nem todas as proteínas são iguais”, afirmou Eduardo Reis, nutricionista esportivo, membro da ABNE e consultor da IFBB Academy Brasil e da CBF Academy, durante o evento. Segundo ele, as proteínas lácteas estão entre as de mais alta qualidade e servem como referência de comparação nas principais publicações científicas, graças à maior concentração de aminoácidos essenciais como a leucina e à sua elevada digestibilidade e biodisponibilidade.
Essa vantagem é mensurável: pelo escore DIAAS (Digestible Indispensable Amino Acid Score), os índices de digestibilidade das proteínas lácteas superam os do ovo e das proteínas vegetais, como soja e ervilha, garantindo maior absorção de aminoácidos essenciais por grama consumida.
Dois públicos que estão redesenhando a demanda
A leucina, presente em alta concentração no leite e no soro, tem papel direto na síntese proteica muscular — e isso projeta a proteína láctea para além do público esportivo. Adultos acima de 65 anos, que enfrentam resistência anabólica, podem precisar de até o dobro de leucina por refeição em comparação a adultos jovens, o que torna esse ingrediente estratégico para o mercado de envelhecimento saudável e prevenção da sarcopenia.
Outro fator vem reforçando essa demanda de forma estrutural: o uso crescente de medicamentos análogos de GLP-1 para perda de peso. Como esses usuários perdem massa muscular rapidamente, o aporte de proteína de qualidade se torna essencial durante o tratamento. Como a obesidade é uma condição crônica, a tendência é que essa demanda não seja passageira.
Onde a proteína láctea está aparecendo
Para Keith Meyer, Diretor de Marketing Global de Ingredientes do USDEC, o avanço no Brasil reflete uma versatilidade que vai muito além das prateleiras de suplementos: os fabricantes têm incorporado ingredientes lácteos a produtos de panificação, snacks, sobremesas congeladas, iogurtes, confeitos e refeições prontas para consumo.
Esse movimento dialoga diretamente com quatro das dez principais tendências de alimentos e bebidas mapeadas pela Innova Market Insights para 2026: a priorização de proteínas de qualidade sobre quantidade; a exigência por sabor e textura mesmo em produtos saudáveis; o crescimento de bebidas com proteína associadas à redução de açúcar; e a demanda por formatos adaptados a diferentes momentos de consumo, das porções individuais para quem mora sozinho às embalagens pensadas para compartilhar.
A oferta que sustenta o crescimento
Do lado da oferta, os Estados Unidos vêm investindo em novas plantas industriais para produção de proteínas de alto valor e ingredientes lácteos funcionais, apoiados no maior rebanho leiteiro do país em 33 anos. Essa produção chega ao Brasil como complemento à indústria local, por meio de concentrados e isolados de proteína do soro de leite e do leite (WPC/WPI), voltados a fabricantes que buscam desenvolver produtos de maior valor agregado. O USDEC soma a isso inteligência de mercado, suporte técnico e consultoria em formulação para fabricantes brasileiros.
Com demanda em expansão, base científica consolidada e um mercado interno em aceleração, a indústria brasileira de alimentos e bebidas tem hoje um cenário raro: dados concretos que apontam para onde investir.
*Produzido pela eDairyNews, com informações publicadas por BHB Food






