Existe um tipo de crise que não aparece primeiro no preço do leite, mas na capacidade de fazer esse leite chegar até uma geladeira.
É o que está acontecendo no setor lácteo ucraniano, onde a guerra com a Rússia deixou de ser apenas um problema de produção para se tornar um colapso de infraestrutura.
O ministro da Agricultura da Ucrânia, Taras Vysotskyi, afirmou em 28 de agosto que ataques russos destruíram cerca de 90% das instalações modernas de armazenamento do país, comprometendo de forma severa a logística de varejo. Segundo o departamento analítico da Forbes Ukraine, desde o início de julho mais de 400.000 m² de espaço comercial de armazéns e logística foram destruídos ou danificados. Um único ataque russo, em 5 de agosto, destruiu dez instalações de armazenamento na região de Kiev, somando cerca de 100.000 m² — e outros ataques atingiram centros logísticos de grandes redes de varejo e empresas de alimentos.
Diante da perda de capacidade de armazenamento, algumas processadoras tentaram uma saída direta: entregar volumes maiores de laticínios diretamente aos supermercados, sem passar pelos centros de distribuição destruídos. Mas essa alternativa esbarra em um limite físico simples. “As geladeiras das lojas não foram projetadas para lidar com essas quantidades de laticínios”, explicou Elena Zupynas, vice-diretora-geral da Associação de Produtores de Leite da Ucrânia, em entrevista ao veículo local UNIAN. “Eles conseguem colocar mais 3 garrafas na prateleira, ou 4 — mas depois? Não estão equipados para vender grandes volumes por esse canal. E os laticínios, especialmente no verão, exigem cumprimento de requisitos de temperatura”, detalhou.
O problema expõe uma característica que torna o setor lácteo particularmente vulnerável nesse cenário: ao contrário de outros alimentos, os laticínios dependem de armazenamento refrigerado especializado e de controle rígido de temperatura em toda a cadeia — do processamento até a prateleira. Quando esse elo se rompe, não há como simplesmente redirecionar o produto por outra via.
Segundo Zupynas, essa ruptura deve forçar as empresas lácteas a encurtar suas cadeias de fornecimento e passar a depender mais de fornecedores regionais. Na prática, isso cria vencedores e perdedores geográficos: produtores localizados perto dos grandes centros consumidores tendem a ganhar vantagem competitiva, enquanto produtos vindos de regiões mais distantes podem simplesmente desaparecer temporariamente das prateleiras.
Essa crise logística se soma a um problema que já vinha de antes. Segundo Zupynas, os produtores de leite ucranianos operam no vermelho há pelo menos seis meses, e muitos vinham sustentando essas perdas com os lucros da produção de grãos. Esse amortecedor, no entanto, também foi comprometido: os danos à infraestrutura portuária da Ucrânia provocaram um colapso nas exportações agrícolas, retirando dos produtores justamente o alívio financeiro que vinha compensando as perdas do leite.
“Os produtores de laticínios ucranianos estão, de fato, em uma situação muito difícil”, resumiu Zupynas, ao comparar o momento atual com meados da década de 1990, quando a Ucrânia conquistou sua independência e todas as cadeias de venda e fornecimento do país foram desestruturadas.
A executiva alertou ainda que, como os diferentes elos do setor agrícola estão interligados, a crise no leite pode transbordar para outras cadeias produtivas. “Lembramos do declínio do setor agrícola, quando os campos não eram semeados nem cultivados. Infelizmente, podemos enfrentar a mesma situação em 2027”, disse.
*Produzido pela eDairyNews, com informações publicadas por Food & Agribusiness






